Catálogos de maus costumes. Continuação.

Outros manuais de maus costumes, vícios, crueldade e do pior de natureza humana.

Hamlet: corrupção, incesto, imoralidade. Duas mortes.

Os Sofrimentos do Jovem Werther: suicídio, cobardia, egoísmo em doses imoderadas. Uma morte ficcional, seguido de milhares de suicidas reais em toda a Europa.

Madame Bovary: traição, adultério, mentira. Três mortes.

Ana Karenina: hipocrisia, fé, infidelidade, luxúria, inveja. Uma morte.

Saramago não insultou a religião. Nada disso. Pior: insultou a literatura.

Um livro para todas as estações

“A Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana”.

Um pouco de luz, mesmo que fraquinha

Num momento em que há sólidas razões para desconfiar dos reguladores, dos órgãos de investigação policial, dos jornais e televisões, seria saudável que o Parlamento contribuísse para iluminar alguns negócios bizarros e intrigantes aqui do pedaço. Logo à cabeça (mas longe de ser filho único) destaca-se o cancelamento abrupto e inoportuno (ou muito oportuno) do Jornal Nacional e a subsequente transacção de uma participação relevante na Media Capital e respectivo financiamento.
Neste momento da história da nossa querida República o único mecanismo ainda respeitável para nos ajudar a perceber um pouco mais do que se passou seria uma comissão de inquérito da Assembleia da República com audiências públicas.
As comissões parlamentares gozam de poderes de investigação próprios das autoridades judiciais e podiam virar muita pedra à procura de lacraus. Com a enorme vantagem obrigar os media a divulgar o que lá se passasse, contra as várias forças de inércia que os impedem de tomar a iniciativa sem empurrões fortes. A verdade é que as últimas experiências não foram desanimadoras. Por mais que o jogo partidário condicione a sua acção, os resultados da comissão de inquérito seriam certamente menos insalubres do que a procissão de horrores sobre o funcionamento dos jornais e das investigações do ministério público que vão desfilando perante nós ao ritmo de fugas de informação anónimas e roubos de emails por obra sabe-se lá de quem.

Encomendas foram muitas

Longe da Pátria, leio o que escreveu o Provedor do Público este domingo ainda sobre o caso das escutas. Desta vez é o DN que sai mal-tratado na crónica de Joaquim Vieira. Espero que o citem. Eu bem gostava de o ter citado quando há quase um mês escrevi este texto, aqui e ali precisamente igual ao do Provedor.

Eu já lo tengo


Queirozologia

Aqueles que criticam Queiroz, pensem bem na Espanha: dez partidas, dez vitórias, uma grande maçada. Com o professor não é assim. Há mais emoção. Mais thriller. Desde o segundo jogo que os restantes passaram a ser de vida ou de morte. E quem não prefere jogos de vida ou morte a treinos para "cumprir calendário" em que se "ensaiam experiências técnico-tácticas". Sobretudo quando nem aqueles conseguimos ganhar e acabamos a fazer contas e a depender de terceiros. Não há nada mais excitante na bola do que depender de terceiros. Assistir com genuíno interesse ao Albânia-Suécia - um objecto televiso para o qual, à partida, o cidadão pagador de impostos se estaria a borrifar. Pena foi que o jogo com Malta não tivesse ficado um a zero. A nervoseira que seriam aqueles minutos finais de cada vez que os malteses passassem o meio-campo. E o alívio, de cada vez que a bola fosse despejada para a bancada. Felizmente a coisa ainda não acabou e vêm aí mais dois joguitos. Mais vida e morte, ou morte e ressurreição. Perder o primeiro por dois ou três para ter que recuperar de uma complicada desvantagem. Não há nada mais estimulante do que ter que recuperar de uma complicada desvantagem. O Queiroz é o nosso mister. Não me lixem.

Essa modalidade de turismo até tem um nome

"Há algum português que vá ao Brasil e não goze ?"
(Miguel Sousa Tavares, no DN de hoje, em defesa de Maitê Proença)

Momento RTC

Porque qualquer comerciante sabe que não se ama ou estima um conservador sem a ajuda de químicos, a edição deste mês da Atlantic publica este oportuno anúncio:
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Nobel da literatura 2009

"Ela trazia um casaco de Inverno de pêlo de camelo e meias altas de lã e a cobrir-lhe o cabelo ruivo escuro um barrete justo de lã branca com uma fofa bola de malha vermelha no topo. Vinda directamente da rua, com as mãos do rosto vermelhas e o nariz a pingar ligeiramente, parecia a última rapariga do mundo capaz de fazer um broche a alguém".

Philip Roth, Indignação, trad. de Francisco Agarez

Vejo agora que o Bruno postou o mesmo excerto. Friends, romans, countrymen. A propósito, também quero dizer que, opinião pessoal, este é o melhor romance do Philip Roth desde o Human Stain

Suction with Eduardo

E eu gostava de subscrever, repetir e imitar o que o Eduardo escreveu aqui a propósito da carta que o Andrew Sullivan escreveu na última edição da Atlantic. E não consta que o Eduardo seja membro honorário da direita gay.

Preemptive peace

A única explicação para este Nobel dado ao Obama, é tratar-se de uma acção de paz preventiva promovida pela bem intencionada academia (vamos cá dar-lhe o prémio e a fama antes que os gajos se lembrem de invadir mais um país). Há porém um pormenor de que os noruegueses se esqueceram: é que Obama está em guerra. E não consta que lhe vá pôr termo antes da cerimónia.

Hey Mr. Sullivan man, sing a song for me

A seguir ao 11/9, Bush institui uma espécie de estado de emergência (Patriotic Act) em que várias liberdades e muitos direitos foram suspensos ou limitados em nome da war on terror. Até aqui, compreende-se. Sujeitos às mesmas circunstâncias, com um mínimo de bom senso e algum realismo, muitos teriam feito igual. O problema é que este estado de excepção foi sendo prolongado por demasiado tempo até se tornar regra. E, pior que isso – é aqui que a linha de fronteira foi violada – coisas que mesmo sob um estado de excepção devem ser absolutamente excepcionais (ou inexistentes), passaram também a ser regra.

Vale a pena ler a longa carta que Andrew Sullivan dirige ao presidente Bush (publicada na última Atlantic), onde lhe pede que reconheça o maior erro da sua presidência: a autorização, mais ou menos informada, provavelmente com as melhores intenções, do uso sistemático da tortura como forma de obtenção de informações. Que reconheça, que assuma total responsabilidade e que se desculpe perante os americanos.

É um texto exemplar do ponto de vista argumentativo. Mas é sobretudo um texto justo de um homem bom. E, nessa medida, muito mais duro do que qualquer hipotética sentença de um tribunal penal internacional.

O que há num artigo definido ?

A bíblica diferença entre «fazer cidade» e «fazer a cidade».

E ainda falta uma semana

Só há uma coisa mais irritante do que a expressão "fazer cidade": é a expressão "fazer cidade" saída da boca de Helena Roseta. Não haverá por aí outro município qualquer a precisar de ser feito que nos livre desta praga.

Carl Schmitt em Belém?

No seu ensaio O Conceito do Político (Der Begriff des Politischen, 1932), Carl Schmitt defendeu a tese de que a política assenta no antagonismo permanente entre amigo e inimigo. O "amigo" é aquele que está disposto a combater por nós e pelos nossos valores; o "inimigo", aquele contra quem combatemos em conjunto e contra o qual nos definimos em conjunto; e a política algo que não existe sem estas duas realidades.


(publicado no i)