Sem resposta

A propósito do que li aqui e aqui, confirmo que publiquei esta crónica no Público a 12 de Novembro, quinta-feira e na segunda-feira da semana seguinte, dia 16 de Novembro, a 2 horas de entregar o meu texto pronto para ser publicado na edição de terça do Diário Económico, como sempre fiz desde o princípio de 2008, fui contactado pelo editor de opinião do jornal informando-me de que a minha colaboração era dispensada. Não obstante ter escrito imediatamente ao director do Diário Económico manifestando a minha surpresa por ter sido dispensado sem uma explicação no próprio dia em que iria entregar um artigo, não recebi qualquer resposta.

25 de Novembro


De resto, o 25 de Novembro levou, de início, muita gente ao engano. Julgou tratar-se de um embate entre esquerda e direita, de que esta teria triunfado. Deste equívoco se alimentou durante uns tempos o 25 de Novembro. O que, na realidade, se verificou foi simplesmente o confronto entre uma extrema esquerda anarco-revolucionária e a esquerda socialista e maçónica, tendo esta última prevalecido.


Curioso período o ano de 1975: o país longos meses à deriva; a súbita sul-americanização, na pior acepção do termo, da vida portuguesa; a acomodação aporrinhada de uns e de outros; as pesporrências e as ameaças, os golpes e contragolpes; a Assembleia cercada por manifestantes; as declarações testiculares, aí valentes, do almirante Pinheiro de Azevedo do alto da varanda do palácio de São Bento; e, finalmente, originalidade suprema e suprema vergonha, o governo em Greve!? O país acéfalo.

[Marcello Duarte Mathias, Diário da Índia, 2004]

Consciência, mentiras e DVD




Jean-Marc Faure (L'Adversaire, Nicole Garcia, 2002) e Georges Laurent (Caché, Michael Haneke, 2005) são homens perseguidos pelo passado. Pelas mentiras que os levam a novas mentiras, e pelo sentimento de culpa onde aquelas começam e invariavelmente acabam. Mas o desassossego destes homens, o seu mal de vivre – que Daniel Auteuil, o actor que os interpreta em dois fabulosos papelões, tão bem transmite – tem uma origem mais remota: a consciência, a boa consciência judaico-cristã com a sua noção de bem e de mal da qual, até certo ponto, nenhum dos dois se consegue libertar. A culpa que leva Jean-Marc Faure e Georges Laurent a mentirem e a com isso sentirem-se mais culpados só existe enquanto estamos perante homens conscientes. Quando acaba a consciência (e eu não vou dizer em que caso isso acontece, para não estragar os filmes) nasce o homem nietzschiano. E aí a história torna-se bastante mais simples. E brutal.

Um cobarde

Eu não sei se este pseudónimo é trincheira singular ou colectiva. Mas, como sugere o FNV, distingue-se mais de um registo nos escritos da criatura. Há um "Valupi" dedicado ao branqueamento dos actos turvos do engenheiro (e que o faz com talento, considerando o apertado espartilho dos factos) e há outro Valupi que se recreia com o insulto primário no quentinho do anonimato.
O primeiro "Valupi" até se compreende. Se me dedicasse à venda daquele peixinho fresco vindo directamente da Lutécia em carro de bois, o anonimato seria uma tentação. Esse "Valupi" é fraco, mas não chega a miserável, como o segundo, o “Valupi” que insulta pelas costas.
Em resposta ao FNV, este segundo “Valupi” nega o estatuto de anónimo. Diz que tem apenas um outro nome que usa para a escrita, um nome que o seu círculo íntimo, os patrões e colegas de trabalho conhecem. Lendo-o, ficamos com uma ideia sobre quem possam ser esses patrões.
A verdade é que rodopia muito à volta da tese, mas não avança. O sapateado entretém, mas não convence. O talento deste “Valupi” não chega para furar a barreira do óbvio: o insulto anónimo é um ataque pelas costas, equivalem-se moralmente.
O anónimo não se expõe ao variado lote de consequências que pode despoletar um texto assumido. Está, para citar alguns exemplos, protegido do ridículo do texto falhado, do ódio dos visados ou mesmo de levar um processo em cima ou um uppercut no focinho. O anónimo também não fica preso ao que escreve; amanhã — ou mesmo hoje — pode vender a alma noutra freguesia do lado oposto da cidade.
O “Valupi” acusa o Pedro Lomba de "indigência mental". Ia sugerir uma comparação de percursos, de méritos intelectuais, mas não é possível... Não se sabe quem se esconde atrás do pseudónimo... Será o infame Professor António Morais ? O Padre Frederico ? Ou será “Valupi” um anagrama ? Um pequeno comboio socrático construído com as primeiras sílabas de vários nomes e com o senhor Vara a puxar ? Tudo é possível. Não sabemos. Só podemos tentar adivinhar. Nesse exercício reconheci um traço que se nos tornou familiar nestes tempos sombrios: essa técnica dialéctica tão estimada pelo nosso primeiro de nunca contestar factos ou argumentos. Essa honestíssima e leal estratégia de imputar ao oponente o que não foi dito nem insinuado, para aí fazer a festa. O “Valupi” afirma que o Pedro Lomba escreveu esta crónica despeitado com a entrega a outros dos “cargos” tradicionalmente do seu grupo sociopolítico.
Lê-se a crónica, lê-se todas as crónicas passadas do Pedro e fica uma dúvida elementar: onde é que o “Valupi” retirou do que o Pedro Lomba escreveu, disse ou fez qualquer preocupação tachista ? Onde ? A resposta é simples: em lado nenhum. Essa lógica mora na cabecinha do (ou dos) “Valupi(s)”. Essa fome amarga e carunchosa que nem mil banquetes saciam. Essa ganância furiosa que se dispõe a arriscar milhões por mais um almocinho de dez mil. Essa é a grelha com que lê o mundo. A política como luta por potes e gamelas.

Enfim, o “Valupi” tem a estatura moral de um frango depenado. Queres responder ? Identifica-te. Basta o nome, não é preciso morada. Pseudónimos são para a literatura.

Tempos de Brandão (o aldrabão)

Tempos sombrios

All that is necessary for the triumph of evil is that good men do nothing.
Edmund Burke

Quantas pesetas vale o caracter(e)?

























Esperem aí. Será que existe alguma relação entre este Figo de hoje no Correio da Manhã e este Figo de 7 de Agosto em entrevista suculenta e exclusiva ao Diário Económico feita aliás pelo próprio director deste jornal, António Costa, numa modalidade nova de "jornalismo"-assessoria governamental que tem de começar a ser rapidamente ensinada nas faculdades tendo em conta as inegáveis saídas profissionais que oferece aos seus licenciados?

Sequência de perguntas do "jornalista":

Como é que hoje vê o país?

Faz uma avaliação positiva deste governo?

No seu entender, era desejável que ganhasse as eleições legislativas?

Fica claro em quem vai votar no dia 27 de Setembro?

E uma das respostas de Figo que lhe saiu assim de repente, sobretudo a parte da "turbulência do sistema financeiro" e das "energias renováveis", como se sabe duas preocupações maiores do futebolista desde os tempos em que jogava no Pastilhas.

Portugal tem feito um caminho... foram feitos investimentos importantes em infra-estruturas nos últimos anos, a aposta nas energias renováveis é também muito importante, hoje e no futuro, mas acabámos por ser apanhados pela turbulência do sistema financeiro que abalou o país. Mas, acho que, pouco a pouco, o país tem feito um caminho de desenvolvimento, por exemplo na educação e nas novas tecnologias, por isso, parece-me que este trabalho tem de ser continuado nos próximos anos...

Aqui neste passeio romântico à beira-mar entre Figo e Sócrates vê-se que está alguém atrás de Figo que o fotógrafo não apanhou. Será que é o próprio director do Diário Económico que resolveu aparecer sem avisar?

Suction with Valchek?

Not quite. Os tempos agora são de suction with Clay Davis. shiiiiit.

Passos de coelho e a táctica

O principal traço definidor do passosdecoelhismo é que o passosdecoelhismo não existe. É uma ilusão de cosmética e táctica. Táctica deles e táctica de outros (o PS).
Mesmo quando os mais graves princípios do Estado de Direito são invocados pelos passosdecoelhistas, não nos iludamos, é táctica.
É preciso que os princípios do Estado de Direito contrariem o timming inconveniente que se adivinha para os eventos? Venham esses princípios ao ringue.
Nos passos perdidos do passismo há uma vala comum cheia de atitudes, declarações e actos insinceros, tácticos.
O passismo é uma espécie de socratismo em que o socialismo de conveniência é substituído por liberalismo de micro-ondas. A mesma falta de curriculo (de mérito) do líder, a mesma vacuidade e a mesma preocupação hipócrita com a «discussão de ideias». Ideias? Quais ideias?

Triangular


























"Esquerda moderna". A mesma triangulação como estilo.

O diabo está nas nuances

Segundo Sócrates "nem ele, nem o Governo, tinham qualquer conhecimento oficial, nem nenhuma informação prévia de nenhuma intenção empresarial da PT".

Se o qualificativo for acidental, se não tiver sido dito para mais tarde poder escapar por ali, o Sol tem algumas explicações para dar. Tem de haver consequências para o jornal que publica uma notícia falsa desta gravidade.

O alfaiate de Brazzaville





[Francesco Giusti, Congo series]

Os desentranhadores

No processo judicial, se a prova junta for considerada inválida, o juiz manda desentranhá-la dos autos. A palavra não é bonita, mas é isso que se passa: o desentranhamento. Para todos os efeitos, aquela prova e o facto que eventualmente demonstre não podem ser considerados na decisão da causa.

No plano político as coisas passam-se de maneira diferente. Os factos politicamente relevantes de que o cidadão (político ou não) toma conhecimento - ainda que com origem num meio legalmente inválido - não podem ser desentranhados da sua cabeça. Na cabeça do cidadão, nas entranhas do seu conhecimento, esses factos passaram a existir e é impossível não serem por ele tomados em conta nos juízos que a partir venha a fazer.

Mais do que discutir a validade processual dos meios de prova, o que alguns agora pretendem é desentranhar certos factos da vida pública e política. Sempre em nome do respeito pelo “estado de Direito”, pois claro.

E aqui vamos nós outra vez, digo eu

Curioso. Dizem que discordam absolutamente, mas não deixam de insistir na história da educação para a saúde. Já percebemos que se espantam muito com a contestação da educação dos jovens para a saúde. Eu contestei esse ponto? Pelo contrário, aceitei-o sem reservas.
Aparentemente perceberam que sou pragmático, mas depois vem o desfoque, a desconcentração. Com meio minuto sem distracções entenderemos facilmente onde nos desentendemos.
Dedinhos quietos uns segundos, sff.
Repito: educação para a saúde, sim. Informação sobre riscos, doenças, contraceptivos, divulgação científica, passarinhos e abelhas, homens e mulheres. Tudo. A mecânica toda, desde que comece em idade adequada (parece-me uma condição moderada).

Como espero que se perceba desta vez, não é a educação para a saúde, a informação sobre os factos da vida, que me incomoda.
(Para abreviar) o meu problema é o Estado pretender ir muito para além disso. Dedicar-se, usando as suas palavras (em itálico), a ensinar competências pessoais subjacentes a uma sexualidade gratificante e toda a demais tralha que consta da Lei n.º 60/2009.

Ora, eu quero o Estado longe da gratificação sexual das crianças (e dos adultos). Não quero os funcionários do ministério da educação a ensinar técnicas de melhoria dos relacionamentos afectivo-sexuais dos jovens (o itálico é a transcrição rigorosa de um dos objectivos da Lei 60/2009. Há outros, para quem quiser ler).

Acho bem que informem sobre estas matérias, acho muito mal que doutrinem. Acham estranho? Devo ser um fundamentalista.

Eles ou nós

O Filipe Nunes Vicente, o meu blogger de 2009.