Moralildade pública


Muita gente não percebeu ainda o que separa o julgamento da moralidade pública da moralidade privada de um governante. Muita gente não percebe ou não quer perceber que um governante até pode ser um canalha em privado desde que seja rigoroso e confiável no domínio das suas competências públicas. Este último plano é tudo o que nos deve interessar. Os julgamentos do carácter de um político devem restringir-se à moralidade como ele exerce as suas funções: à ètica pública e não à ética privada, ao modo como cumpre as convenções democráticas, respeita os adversários e as regras do jogo político. Neste plano estamos autorizados a ser exigentes e atentos. Por isso, este artigo da Constança Cunha e Sá, ao formular uma crítica ao moralismo - "no momento em que se salta da crítica política para análises moralistas sobre o carácter do primeiro-ministro" - , é um texto errado por não se ocupar daquela subtil distinção. O que está em causa. o que sempre esteve em causa, é tão-só um julgamento público.

Paciência recíproca

Não, Isabel, a minha ironia não era dirigida pessoalmente contra ti e muito menos para diminuir a tua opinião, que respeito em absoluto, mas contra aquele argumento ad terrorem e falso que tem levado algumas pessoas, de maneira imprópria e às vezes contradizendo aquilo que já defenderam no passado, a equiparar a situação do primeiro-ministro à de um cidadão comum. Até agora nenhum jornal dos que já publicaram notícias sobre o caso "Face Oculta" violou a privacidade de José Sócrates. O segredo de justiça sim, mas nenhum dos factos já tornados públicos diz respeito à vida privada do primeiro-ministro, mesmo que tivesse sido retirado de conversas com um amigo. Se quiseres posso dar-te outros exemplos de casos análogos e nem é preciso mencionar os Pentagon Papers que, contra o segredo de Estado, a segurança nacional e as conversas particulares de Nixon, apareceram nos jornais e foram depois confirmados por uma decisão histórica do Supremo Tribunal Federal Americano. Há dois anos o antigo primeiro-ministro da Hungria, Ferenc Gyurcsáni, também foi gravado numa reunião privada com membros do seu partido a dizer que "tinha andado a mentir aos húngaros nos últimos dois anos". Foi tudo divulgado e ele precisou de responder por isso.

Continuo a dizer - felizmente há muita gente que defende exactamente o mesmo - que tudo o que o primeiro-ministro tiver comentado com Armando Vara que seja revelador de uma conduta politicamente irresponsável e manipuladora, em particular no que se refere às suas relações com a comunicação social, deve ser esclarecido para podermos formular o nosso próprio juízo sobre o tema. Continuo também a dizer - e há muita gente a dizer o mesmo - que as escutas a Armando Vara em que interveio o primeiro-ministro são válidas, mas não creio que devamos enxamear este problema com o típico formalismo e indefinição em que alguns juristas são especialistas. O problema é político e é nesse território que deve ser analisado.

Por fim, é óbvio que o meu reparo também não te visava a ti mas ao blogue onde decidiste escrever que foi muito crítico, por exemplo, do Presidente da República mas que não é capaz do mesmo espírito contra o governo e o primeiro-ministro. De resto, já tive várias oportunidades para testemunhar a tua liberdade e coragem e a última delas aconteceu há pouco tempo. Quanto ao resto, conversamos face-to-face. Até breve.

Depois da desinformação, as escutas socráticas

: E como hás-de encontrar uma coisa de que não sabes absolutamente nada? Na tua ignorância, que princípio tomarás para te guiar nesta investigação? E se, por acaso, encontrasses a virtude, como a reconhecerias, se nunca a conheceste?

: Compreendo o que queres dizer. Que magnífico argumento para uma discussão ! Não é possível o homem procurar o que já sabe, nem o que não sabe, porque não necessita de procurar aquilo que sabe e, quanto ao que não sabe, não podia procurá-lo, visto não saber sequer o que havia de procurar.

: Não te parece bom esse raciocínio ?

: Decerto que não.

: Podes dizer-me então: a virtude é coisa que se ensina? Ou não é coisa que se ensina mas que se adquire pelo exercício? Ou nem coisa que se adquire pelo exercício nem coisa que se aprende, mas algo que advém aos homens por natureza ou por alguma outra maneira ?

: Também estou tão longe de saber se isso da virtude se ensina ou não, que nem sequer sei o que é que a virtude possa ser com ela me cruzar. Na realidade, também me encontro nesse estado. E, quem não sabe o que uma coisa é, como poderia saber que tipo de coisa procurar? Ou parece-te possível, alguém que não conhece absolutamente quem é, saber se é belo, se é rico e ainda se é nobre, ou mesmo o contrário dessas coisas? Parece-te isso possível ?

: Não, a mim não. Mas tu, já vejo bem, verdadeiramente não sabes o que é a virtude, e é isso que, a teu respeito, devemos levar como notícia para casa ?

: Pareces a velha.

Coffee table books

























Uma mulher objecto; duas mulheres objecto; um Keith Richards objecto (ou abjecto, como queiram).

[Sante D'Orazio, Barely Private, Taschen 2009]

O estilo paranóico na política portuguesa















Richard Hofstadter foi um grande historiador americano de meados do século americano. Conhecido pelas suas simpatias à esquerda, ficou sobretudo famoso por um artigo publicado na revista Harper’s nessa altura, O estilo paranóico na política americana. Ainda hoje esse ensaio, de leitura obrigatória, é considerado um dos mais influentes artigos nos 150 anos de história da revista. Quem eram os paranóicos para Hofstadter? Os republicanos que contaminavam o debate político com toda a espécie de suspeições e cabalas, teorias da perseguição, fugas para a frente, reacções escandalizadas e no meio de tudo uma dose apreciável de desconversação. Faziam-se vítimas de uma orquestra obscura que os pretendia liquidar a todo o custo. Creio que é possível escrever em Portugal exactamente o mesmo tipo de ensaio de Hofstadter mudando somente os protagonistas. Os nossos paranóicos, desconversadores, "perseguidos" são outros. Mas usam a mesma estratégia irracional de debate, para evitarem discutir o que mais interessa.

Paciência é o que temos tido

Diz aqui a Isabel Moreira que se o Parlamento fiscalizar José Sócrates pelos actos políticos que resultam das suas conversas com Armando Vara todos temos que ficar preocupados com a devassa geral que aí se prepara às nossas privacidades.

Quero tranquilizar a Isabel. A privacidade dela ou de qualquer outra pessoa não corre perigo nenhum se José Sócrates responder perante o Parlamento acerca das suspeições que têm sido noticiadas sobre as suas interferências na independência dos meios de comunicação social. Acho que o Correio da Manhã não está interessado.

Eu repito: Sócrates é primeiro-ministro, exerce um cargo de governo, detém o poder político máximo em Portugal. Não é um cidadão comum. Está sujeito a um escrutínio mais intenso daquele que é devido aos outros cidadãos. É um escrutínio institucional sobre os actos funcionais (e não pessoais) de um membro do governo. Sabes bem disso, Isabel, porque também o ensinaste durante muitos anos na universidade.

Repito também que o objecto da comissão parlamentar de inquérito está claro na crónica que escrevi: interferências do governo na independência dos meios de comunicação social (conhecimento prévio de Sócrates do negócio da TVI, suspeitas de intervenção do primeiro-ministro junto do BCP para a renegociação das dívidas da Global Notícias, suspeitas sobre a manipulação política dos investimentos publicitários do Estado nos jornais).

Todos estes alegados factos devem ser investigados e apurados, por razões óbvias, através dos instrumentos próprios da responsabilidade política do governo. E nenhum deles foi desmentido pelo primeiro-ministro. Nem o seu conhecimento do negócio da TVI (na verdade Sócrates até afirmou que uma coisa foi o seu conhecimento informal e outra o conhecimento público, admitindo por essa via que até tomou conhecimento do negócio e por isso mentiu ao Parlamento), nem a suposta renegociação das dívidas da Global Notícias, nem todos os factos adicionais que parecem apontar para um projecto sistemático de controlo da comunicação social por parte deste governo e, em particular, deste primeiro-ministro).

Aliás, nem era preciso termos tomado conhecimento parcial do conteúdo das escutas. Tudo aquilo de que antes já se suspeitava seria suficiente por si para justificar um inquérito parlamentar.

E de onde vem essa ideia, Isabel, de que o despacho de arquivamento do Procurador-Geral desmentiu a veracidade das notícias já publicadas? O despacho de arquivamento significa que o Procurador-Geral entendeu que não havia matéria criminal nas conversas entre Vara e Sócrates. Não desmente rigorosamente mais nada. Não desmente a relevância política dos factos contidos nessas conversas.

Mais ainda: nem sequer desmente a sua relevância jurídica, porque o primeiro-ministro pode ter cometido inúmeras ilegalidades (administrativas, por exemplo) que não constituem crimes e devem ser esclarecidas. Estou a pensar, por exemplo, em potenciais violações à lei do financiamento partidário. São matérias que precisam de ser investigadas.

A Isabel ignorou no entanto um ponto importante. Uma comissão de inquérito parlamentar pode ser constituída com restrições de publicidade no interesse do direito do primeiro-ministro à privacidade. Na minha crónica eu quis sublinhar este mesmo aspecto. Ninguém tem interesse legítimo em saber que espécie de comentários laterais ou de linguagem usa o primeiro-ministro em conversas com o seu amigo de longa data Armando Vara. Uma comissão de inquérito nessas condições conjugaria os valores em presença: fiscalização política e sigilo. Se nem este compromisso for aceite pelo partido do governo, então somos livres de especular e avaliar politicamente essa recusa. A privacidade do primeiro-ministro tornou-se um fundamento frouxo para fugir ao esclarecimento.

Há uma nota final que vem a propósito. Não posso deixar de reparar na contradição assustadora que existe num blogue que se aplica na intolerância e exigência moral contra tudo o que mexe mas que, tratando-se do governo e do primeiro-ministro, fica mudo e quedo. É uma contradição sobre a qual também me permito especular.

Uma questão de perspectiva ou uma perspectiva da questão



If you are an idealist, you'll see idealism in her films; if you are a classicist, you'll see in her films an ode to classicism; if you are a Nazi, you'll see in her films Nazism (Jonas Mekas sobre Leni Riefenstahl, em 1974).

O triunfo dos antissépticos

Na contracapa do dvd de O Triunfo da Vontade (1935), pode ler-se o seguinte: Leni Riefenstahl foi actriz, realizadora e fotógrafa. Uma personagem controversa, uma visionária e acima de tudo uma sobrevivente que viveu grande parte dos seus 101 anos desvinculando-se mil e uma vezes da enorme sombra de suspeita que projectavam as suas duas obras primas: O Triunfo da Vontade e Olympia.

Não sendo formalmente incorrecto, este texto tem porém uma mensagem subliminar que o é: a ideia de que Riefenstahl foi erradamente tomada por nazi, quando na realidade apenas se tratava de uma cineasta visionária que, por acaso, filmou muito bem o nazismo. Uma espécie de tranquilizador para a consciência do consumidor ideal. Ou uma bisnagada daquele gel para gripes que agora há por todo o lado.

Acontece que há quem compre o filme, veja o filme e goste do filme sem se importar um segundo que a realizadora tenha sido, de facto, nazi. Mais, há quem ache até que a grande força do filme está, precisamente, nessa circunstância. O Triunfo da Vontade não seria o Triunfo da Vontade se tivesse sido filmado sob a ameaça da pistola de Goebbels. O contexto pertence à obra, como o virus pertence à doença. Ao menos nisto, poupemos nos remédios.

O Elogio da Samarra

Independência absoluta

Atentemos às palavras de Sócrates (o secretário-geral, não o primeiro-ministro).

Claro. A afirmação de Manuela Ferreira Leite de que o primeiro-ministro mentiu ao parlamento quando negou que conhecia o negócio da TVI só pode resultar do conhecimento prévio das escutas.


Mas não é por aqui certamente. A instrumentalização da PT só pode ter acontecido até 2005. Acabou aí. Desde 2005 para cá: independência absoluta.

Justiça comutativa: a cada um o que é devido


A semana passada acabou para nós com duas referências pessoais simpáticas em blogues bastante distantes. Não nos sentimos obrigados a retribuir, mas temos uma sincera vontade de o fazer.

Nem sempre é bom conhecer a pessoa por trás do blogger. Reduz o poder de fogo, nuns casos, destrói preconceitos estimados, noutros. Deixa-nos mais moles, mais indiferentes. Com o João Gonçalves e com o Val (Valupi, para desconhecidos), não foi o que se passou.


A propósito do Val reafirmamos tudo o que por aqui foi escrito sobre anónimos. Simplesmente retiramo-lo da categoria. Hoje sabemos que o Valupi dá a cara pelo que escreve e isso faz toda a diferença. Para nós é agora tão não-anónimo como, por exemplo, o Maradona.


Continuamos a discordar politicamente sobre as aventuras do primeiro-ministro, mas confirmamos que Sócrates perdeu um assessor nesse fim de tarde. O problema (para nós) é que como compensação ganhou um aliado circunstancial que vale um gabinete inteiro. Mas, enfim, também ficámos conscientes que amanhã, com outras circunstâncias, os aliados serão outros. E então, para variar, poderemos entender-nos durante uns tempos.


O João é – como alguém um dia lhe terá dito – o blogger mais antipático do mundo. Só que para nós a “antipatia” é qualidade. Mais ainda quando as bordoadas são dadas num estilo e português impecáveis. Só não achamos graça quando o alvo é a nossa mãe.

Duarte e Eduardo

Ereto

























“Vamos desovar ele no lixão.”

Foi última coisa que ouvi. Quando voltei a ter consciência, abrindo os olhos e vendo estrelas, era de noite. Eu estava jogado no lixão de uma favela, no meio de restos de comida, merda, lixos variados, coisas putrefatas, um fedor nauseabundo. Ao meu lado um presunto, um negro grande com o rosto estourado de porradas e o corpo cheio de furos de bala. Tenho que dar o fora daqui, pensei. Mas não consegui ficar de pé e fui me arrastando, me arrastando como um verme. Então me lembrei de uma frase que li num dos livros do Bruce Chatwin, sobre a importância da postura ereta, a postura ereta, ainda mais do que o desenvolvimento da linguagem, ainda mais do que a presença do superego, entre esses atributos do homem que o elevaram acima do reino animal, a postura ereta era o mais importante. Anda, seu filho da puta, eu disse para mim, fica em pé, ereto, seu merda, ereto.

Então, com grande esforço me ajoelhei, depois me ergui lentamente, ficando em pé. Ereto. Poder sair do lixo sem rastejar me deu uma das maiores alegrias da minha vida. Fui andando, cambaleando, mas ereto, dando passos lentos, mas ereto, como um homem deve caminhar, ereto. Então tudo escureceu.

A doutrina Portas aplicada a Sócrates

Para ilustrar aquilo que escrevi neste artigo do Público, republico o excelente texto de Vital Moreira de há uns anos a que fiz referência no meu texto, com sublinhados meus. Devo dizer que Vital Moreira é tão estrito no que respeita à sua teorização da responsabilidade política que inclui factos da vida particular e anteriores ao desempenho de funções governativas, duas circunstâncias que já teriam liquidado José Sócrates há muito tempo. Eu nem sou tão exigente como ele. Não creio por exemplo que um primeiro-ministro devesse ser demitido por "fraude académica". É assunto a discutir.

Quanto às acusações de desonestidade intelectual que li por aí, julgo que o melhor é lerem o texto. Finalmente, sobre a falta de paralelismo entre os factos que eram imputados a Paulo Portas no contexto da Universidade Moderna e uma pretensa ausência de factos relativos a José Sócrates no caso "Face Oculta", esclareço que todos os que defendem a efectivação da responsabilidade política de José Sócrates pelo conteúdo das conversas com Armando Vara, estão precisamente a sustentar que os factosneste caso devem ser esclarecidos até ao limite através dos canais institucionais da responsabilidade política. Como se diz num país que sabe bastante mais do que nós de responsabilidade política (Reino Unido), antes da responsabilidade política sancionatória, há primeiro lugar a uma responsabilidade política informativa e justificativa. Esqueci-me ainda de referir que todos estes factos no "affair" da Universidade Moderna em 2002 vieram a público em sucessivas violações do segredo de justiça. Na altura não me lembro que tivessem protestado.

"Responsabilidade Política", por Vital Moreira, Público, 24-09-2002

A linha de defesa do ministro Portas no “affaire” Universidade Moderna tem assentado em três argumentos: primeiro, que os factos que lhe imputam respeitam à sua vida particular e são anteriores e alheios ao desempenho das actuais funções governativas; segundo, que tais factos já foram objecto de investigação policial, não figurando ele entre os acusados pelo Ministério Público no âmbito do respectivo processo judicial; terceiro, que, estando a questão em julgamento no tribunal competente, é ilegítimo transportá-la para o foro do debate político. Sucede, porém, que sob o ponto de vista de uma teoria da responsabilidade política num Estado democrático, nenhum destes argumentos é minimamente procedente.

Quanto ao primeiro argumento, é evidente que a responsabilidade política não tem a ver somente com os factos praticados no exercício de cargo públicos. A conduta particular, mesmo anterior e sem qualquer relação com o mandato exercido, pode ser relevante e desencadear procedimentos de responsabilidade política. Grande parte das demissões de ministros por essas democracias fora devem-se a factos da vida particular, mesmo anteriores ao exercício do mandato. Por exemplo, dificilmente se poderia compreender que se pudesse manter como ministro das Finanças quem se descobre ter defraudado dolosamente o fisco, ou ministro da Educação quem tenha sido punido por fraude académica. O exercício de cargos políticos requer um mínimo de honorabilidade e dignidade de conduta e de carácter. Um político pode não ter de ser instruído nem competente, mas seguramente não pode ser um biltre ou um vigarista caracterizado.

Também não tem nenhuma valia o argumento de que os factos aduzidos não foram considerados criminalmente relevantes. Na verdade, ao contrário do que muitas vezes parece entre nós, a responsabilidade política não se confunde com responsabilidade criminal. Por um lado, pode haver crimes que não relevam para efeitos de responsabilidade política. Por outro lado, e sobretudo, pode haver responsabilidade política por factos criminalmente irrelevantes. Desde logo, existem outros tipos de ilícito além do ilícito criminal, como o ilícito disciplinar e o ilícito administrativo. Por exemplo, a maior parte das faltas em matéria fiscal não constituem crimes, podendo porém ser as mais devastadoras sob o ponto de vista da responsabilidade política. Depois, existem crimes que o Ministério Público só por si não pode acusar, por dependerem de participação de terceiros. Além disso, a lógica da responsabilidade política não tem a ver sequer com a existência de factos ilícitos, podendo limitar-se a condutas moralmente reprováveis ou politicamente censuráveis.

Por último, também não colhe o argumento de que, estando uma questão pendente de julgamento judicial, a condenação política de um ministro por causa dela significaria uma violação da separação de poderes. Este é de resto o argumento mais bizarro de todos. Existe obviamente uma separação entre o foro judicial e o foro político, mas nada impede uma acusação (e eventual condenação) na ordem política, justamente porque se trata de um juízo totalmente distinto e independente da ordem penal. Mesmo que o visado tivesse sido acusado de qualquer crime e estivesse a ser julgado por ele, é evidente que a pendência do processo não impediria a censura política no lugar próprio pelos mesmos factos, ou seja, em sede parlamentar e da opinião pública.

A ligeireza com que estes argumentos foram aduzidos pelo interessado e seus apoiantes e a facilidade com que foram acriticamente secundados por alguns comentadores e analistas não deixa de causar a maior preocupação quanto ao estado de saúde da nossa democracia em termos de “accountability” e responsabilidade política. Num país democraticamente maduro, o que estaria em discussão era a substância do problema (ou seja, a censurabilidade política dos factos em causa) e não a legitimidade ou pertinência da apreciação da conduta do ministro sob o ponto de vista da sua responsabilidade política.

Ora, quanto à substância, o mínimo que se pode dizer, face ao que se conhece, é que o ministro Paulo Portas se encontra em maus lençóis. Por várias razões.
Primeiro, porque não são poucas nem politicamente insignificantes as acusações de que é alvo. Dificilmente se podem subestimar as passagens que lhe dizem respeito no relatório da Polícia Judiciária sobre o caso Moderna (e outras entretanto vindas a público), incluindo as menções da falta de documentação das transferência financeiras da Universidade Moderna para a empresa por ele gerida, do financiamento de despesas particulares e partidárias do mesmo, do benefício pessoal de despesas luxuriantes pagas pela mesma universidade (entre as quais o célebre Jaguar).

Segundo, porque a gravidade dessas acusações — até agora sem desmentido convincente — é acentuada dramaticamente pelo passado “justiceiro” do mesmo Paulo Portas, que entretanto, então como director do semanário “Independente”, se dedicava, com desvelo e sanha, a demolir metodicamente governos e ministros (do mesmo PSD de quem é agora aliado), muitas vezes com base em acusações bastante menos importantes ou consistentes do que as que agora lhe são assacadas. Isso cria um problema de incoerência de carácter e de contradição política, que tem constituído o mais embaraçoso escolho do ministro em todo este “dossier”. Quem fez de super-Catão contra outros, não pode agora limitar-se a queixar-se de que está a ser vítima de “character assassination” sem se dar ao trabalho de esclarecer convincentemente perante o Parlamento e a opinião pública os factos que lhe são apontados.
Terceiro, porque ele tem adoptado uma postura entre a arrogância e o destempero, que nada ajuda à sua posição. Recusou-se sobranceiramente a esclarecer o caso perante o Parlamento, sede própria para o efeito, com o devido contraditório político público. Preferiu “explicar-se” sem contradita política num canal de televisão. Respondeu depois irritadamente a perguntas da imprensa na sua residência oficial de ministro da Defesa e no contexto de uma cerimónia oficial. Por último, convocou uma manifestação de apoio pessoal, para uma patética liturgia de fidelidade sem paralelo entre nós desde a implantação da democracia, a fazer lembrar as ridículas jornadas de desagravo do Estado Novo. Nada disto é conforme aos cânones democráticos. Tudo isto só contribui para agravar a sua posição e desacreditar a política.
Provavelmente a teimosia e a insensibilidade do ministro vão fazê-lo resistir ao pedido unânime da oposição e de boa parte da imprensa para a sua demissão. Presumivelmente o primeiro-ministro vai continuar a reiterar-lhe a confiança, temeroso de que a saída do chefe do partido menor da coligação possa arrastar a queda do Governo. Mas dificilmente um e outro passarão incólumes esta provação. Nada indica que o lamaçal do processo da Universidade Moderna deixe de continuar a salpicar Paulo Portas. E pode não ser necessário muito tempo para que Durão Barroso se dê conta de que a manutenção do enfraquecido e vulnerável ministro da Presidência e da Defesa bem pode ser uma pesada hipoteca para o futuro do Executivo.
Depois de ter sido o flagelo do último Governo do PSD, Paulo Portas pode vir a ser o coveiro do actual. Tal como na fábula da rã e do escorpião, está na sua natureza?

A valuable piece of advice

Disraeli conta ter recebido um pequeno ensinamento de Lord Lyndhurst nos frustrantes tempos de espera por uma oportunidade de estreia no parlamento inglês (na sequência de três eleições falhadas): «Never defend yourself before a popular assembly, except by retorting the attack; the hearers, in the pleasure which the assault gives them, will forget the previous charge
Lyndhurst, (se nos lês aí no Inferno): é bom o conselho. Aqui na terra tem sido severamente testado e tem funcionado que é uma maravilha.

MAD

A doutrina MAD (mutual assured destruction) assentava na ideia do equilíbrio do terror. Cada uma das partes confiava que a outra se absteria de lançar um ataque nuclear por saber que a retaliação do atacado aniquilaria também o atacante. A segurança dos dois blocos dependia da mútua consciência da letalidade do second strike do inimigo. Os dois contenders viviam num estado de respeitosa vigilância recíproca. Uma cena de duelo sem desfecho, tensão perpétua sem disparos.
O sistema partidário português, com variações de grau dependendo dos líderes do momento, vive num nefasto equilíbrio muito análogo ao MAD quando o tema é corrupção. Mais precisamente, quando em cima da mesa estão as implicações políticas de um caso concreto de corrupção, com nomes conhecidos.
A multidão de cadáveres (em variados estados de decomposição) que todos guardam nas arcas, e que todos sabem que os outros guardam nas arcas, são o dissuasor de qualquer ataque. Todos sabem que quem iniciar um ataque nesse terreno pode não sobreviver ao second strike do adversário. É o equilíbrio da podridão.
Ontem o debate sobre os arrabaldes do processo Face Oculta aqueceu no parlamento. Na síntese da SICN, a jornalista dizia que “o CDS, mais uma vez, ficou à margem”.
E é mesmo assim. Sempre que o tema na ordem do dia envolve justiça — por mais politicamente relevante que possa ser — a bancada do CDS escorrega devagarinho cadeira abaixo até à invisibilidade e finge-se morta. O PSD neste momento conserva alguma liberdade de movimentos e isso nota-se. Mas tudo pode mudar em Maio: atenção aos sinais.
Beware the ides of May.