Crónicas de enjoo
Este artigo da dra. Constança Cunha e Sá, que tanto aplauso recebeu nos blogues do "Eixo do Mal", é completamente irrelevante para o que está em discussão. O caso Crespo, em que de resto também manifestei dúvidas pelo facto de o jornalista da SIC não ter sustentado bem a sua crónica, já faz parte da pré-História. Não é isso que está em cima da mesa. Com os indícios de que a TVI pode ter sido tomada de "assalto", Crespo não interessa para nada. Juridicamente, também é um artigo errado. Só mais faltava que o próprio ofendido não pudesse reagir em público, numa crónica, contra alguém que o ameaçou mesmo numa conversa particular. Não gosto de bufos, mas também não gosto de gente que não se sente. De qualquer maneira, como é fácil perceber, a separação entre aquilo que é público ou privado não depende necessariamente do local. Outra nota deste artigo refere os"Mários Crespos que por aí pululam" e o "ambiente de histeria". Claro que é só uma nota de estilo. A dra. Constança Cunha e Sá pertence a uma escola displicente da crónica portuguesa: o jornalismo que vive em permanente enjoo com o mundo. Neste texto, só tem razão no seguinte: este governo só não cai porque não há alternativa. É preciso por isso que o PSD se resolva.
por
Pedro Lomba
Coisas simples
Que o Jugular não se junte à manifestação, eu compreendo. A maioria dos seus elementos não tem autonomia. Que os membros do Arrastão se deixem ir na cantiga, porque "não falamos todos da mesma liberdade", é mais estranho. Pois não: seguramente temos ideias diferentes sobre a liberdade e sobre as liberdades. Mas esta manifestação não é um concurso de liberdades. É um protesto por uma imprensa livre do controlo político e por um ambiente público respirável onde as nossas ideias se formem em liberdade; e é pelo esclarecimento das suspeitas que se avolumam sobre a actuação directa do primeiro-ministro em controlar a liberdade de informação.
Estes princípios não são de esquerda, nem de direita. São anteriores a tudo isso. Se vamos discutir o conceito de cada um sobre a liberdade de imprensa, nunca mais saímos daí e não se faz nada. Quem põe as convicções acima do tacticismo, tem de estar presente. Há uma esquerda radical que só se consegue juntar à direita nas causas que lidera (como aconteceu, por exemplo, no aborto). É preciso denunciar um primeiro-ministro que parece abusar sistematicamente do poder do Estado para uso próprio, no controlo de órgãos de informação privados. Tão simples quanto isso.
por
Pedro Lomba
Distribuir
Henrique, podemos falar dessa e de outras questões constitucionais. Para já, sugiro que comecemos por este post curto de Menezes Leitão e pela página 767 da constituição anotada de Gomes Canotilho e Vital Moreira (na 3ª edição). Podemos até criar um dossier e distribuir por aí.
(Notinha: Em abstracto, as coisas são assim; em concreto, há mais mundo no direito e na política do que no reino dos céus, Horácio.)
por
Pedro Lomba
Todos pela histeria
O Tiago Mendes de volta, um grego entre romanos, e a dizer o que é preciso.
por
Pedro Lomba
Bibliografia aconselhada para os tempos que correm (da esquerda e da direita)
A "democracia" dirigida à moda de Sócrates e dos seus amigos
Obrigações de responsabilidade política a que está sujeito um primeiro-ministro, mesmo não tendo sido sujeito a qualquer inquérito de tipo criminal
Liberdade de imprensa como valor instrumental para a garantia e realização do Estado de Direito
por
Pedro Lomba
No passa nada
Como não há nada de relevante a acontecer nesta terra desde sexta-feira passada, o fanzine número um de José Sócrates ficou entregue à pitoresca Palmira F. Silva com os seus posts sobre "poeira das estrelas" e a deliciosa série “esta gente passa-se” (big time!, big, big time!!!, real big time!, big time really!! ...) sobre exorcismos, estudantes de Valparaíso, homofobias várias e demais curiosidades do novo mundo.
por
Eduardo
O método da guerra (cultural) II
O que terá levado o neo-especialista em direito constitucional Eduardo Pitta (hoje em dia é difícil discutir política sem correr o risco de nos cair um constitucionalista em cima) a ilustrar um post sobre o Crespogate com uma fotografia do dito Crespo e Kaúlza de Arriaga, acompanhada da seguinte legenda: Mário Crespo ao lado do general Kaúlza de Arriaga, de quem era adjunto, pouco antes dos massacres de Wyriamu, em 1972 ?
Será que quem foi adjunto e se sentou "ao lado do general Kaúlza de Arriaga", em 1972, “pouco antes dos massacres de Wyriamu”, não tem estatuto moral para criticar o nosso querido PM? E se esse acto de "sentar-se ao lado de" tivesse sido em 1960, ainda antes de ser adjunto e longe dos massacres de Wyriamu, também não tinha? Ou se porventura tivesse acontecido a Mário Crespo ter estado à frente do general Kaulza, em vez de ao lado, não antes mas após os massacres de Wyriamu? Talvez seja mais grave e Mário Crespo deva ser julgado por cumplicidade em crimes contra a humanidade? Ou será que uma coisa (Crespogate) não tem nada a ver com a outra (massacres) e tudo não passa de um apontamento histórico do generoso Eduardo?
Não vale invocar a constituição na resposta.
por
Eduardo
Sim e não
Este artigo do Filipe merece comentários. Desde logo porque é o Filipe e eu sigo tudo o que ele escreve com máxima atenção. Depois, para lhe dizer, em primeiro lugar, que estou de acordo que é preciso manter a cabeça frio neste momento. É sempre preciso manter a cabeça fria, sobretudo em tempos de escândalo. Estou ainda de acordo que outros governos manipularam e tentaram manipular a comunicação social em medida próxima à de Sócrates (mas não com o mesmo alcance e penetração). A RTP foi sempre governamentalizada (pelo PS e PSD), o DN mostrou sempre historicamente proximidade ao poder e o cavaquismo não está certamente inocente de intentos controleiros (foram muitos e eu também me lembro). Terceiro ponto de concordância: não comparemos o que se passou à censura do tempo da ditadura e a quem sofreu bem na pele, com custos físicos, afrontas à sua liberdade de expressão.
Dito isto, eis as minhas profundas discordâncias com o texto do Filipe: i) a manipulação, tal como parece ter existido, não foi obra sobretudo de "arrivistas", mas resultou (e teremos provavelmente a confirmação disso mesmo nos próximos tempos) de um plano idealizado e executado por vontade do próprio primeiro-ministro José Sócrates; ii) não é preciso esclarecer que ainda vivemos, apesar de tudo, em democracia, mas podemos e devemos dizer que tudo isto representou, de facto, uma iniciativa para manipular e restringir a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão num país que foi a eleições em 2009 (aliás, parece-me contraditório dizer-se que "as últimas eleições foram viciadas" e que a liberdade de expressão não é para aqui chamada); iii) eis o que é novo, grave e perturbador neste contexto: a criação de uma teia que unia o poder político, o poder financeiro e o poder empresarial para tomar conta de um jornal e de uma televisão privada, silenciando determinados jornalistas e promovendo outros jornalistas-fantoches. Isto, Filipe, pode não ser novo face ao que já se sabia da Europa, mas é novo em Portugal que é um país pequeno, pobre e com um espaço público extraordinariamente vulnerável. O cavaquismo sofreu todas as semanas com o Independente, mas não reagiu usando bancos privados e orquestrando esquemas com grandes empresas semi-privadas para o comprar e domesticar. Esta aliança pensada, fabricada e executada entre aqueles que têm o poder do Estado, o poder do dinheiro e o poder da economia com um objectivo de controlar a comunicação social e hegemonizar este governo, significou um ataque inconcebível e sem precedentes à nossa liberdade. É a liberdade que está aqui em causa, não tenhamos quaisquer dúvidas disso.
[ADENDA: Neste segundo post o FNV esclarece algumas das pontas que ficaram do primeiro e alude ao "papel dos capitalistas". Mas o "papel dos capitalistas" é aqui inseparável do "papel dos políticos". Ambos uniram o seu poder máximo para promover uma ordem social e mediática dentro da qual eles se assumissem como hegemónicos e incontestáveis. Este é o lado mais perurbador deste caso. No fundo, tudo muito mais grave do que uma mera manipulaçãozinha de jornais e televisões).
por
Pedro Lomba
A Constituição
O Eduardo Pitta não tem razão a vários títulos. O Presidente pode constitucionalmente demitir o governo e o primeiro-ministro quando tal se torne necessário para assegurar o regular funcionamento das instituições democráticas. Para tal, não está sujeito aos limites temporais previstos na Constituição para o exercício do poder de dissolução da Assembleia da República. Nem faria sentido que estivesse, porque a demissão do governo assenta em pressupostos de responsabilidade constitucional do primeiro-ministro perante o Presidente que são naturalmente mais graves e excepcionais do que os subjacentes à dissolução do Parlamento. A demissão do governo destina-se a garantir, não a renovação da legitimidade política do executivo, mas a remoção de um governo que atenta gravemente contra o funcionamento regular dos poderes democráticos.
Após a demissão do governo, o Presidente também não está obrigado a dissolver a Assembleia da República e a convocar eleições antecipadas. Pode ocorrer a indigitação e a nomeação de um novo primeiro-ministro dentro do quadro da mesma composição parlamentar. E não é verdade que só exista o precedente Santana Lopes quando Durão Barroso apresentou o seu pedido de demissão. Por exemplo, depois da morte de Sá-Carneiro, Francisco Balsemão tornou-se primeiro-ministro dentro da mesma maioria parlamentar saída das eleições de 79. E também não é verdade que tivesse sido o PSD a escolher a sucessão sem eleições em Junho/Julho de 2004. Essa foi também, do ponto de vista político e constitucional, uma decisão do então Presidente da República Jorge Sampaio e não foi por acaso que, naquele contexto, Jorge Sampaio ponderou e maturou profundamente a sua decisão, tendo estado dividido entre permitir a substituição de Durão Barroso dentro da mesma maioria ou dissolver o Parlamento. Se, por hipótese, o PS não quisesse ou não tivesse condições de indicar um novo primeiro-ministro e formar governo, ainda assim a Constituição permitiria que o Presidente da República procurasse, dentro do quadro parlamentar existente, outras soluções de governo susceptíveis de garantir estabilidade política. O que seria politicamente difícil, é certo - pela probabilidade de o PS rejeitar o governo que fosse nomeado pelo Presidente - mas nem por isso constitucionalmente impossível.
Portanto, a substituição do actual primeiro-ministro e do governo que ele lidera pode dar origem a um novo primeiro-ministro e a um novo governo do PS, sem que o Presidente da República esteja temporalmente impedido de praticar os respectivos actos constitucionais de demissão e nomeação. Este é o formalismo que decorre do texto constitucional. Depois, se há condições políticas ou interesse dos actores envolvidos para isso acontecer, é outra coisa.
por
Pedro Lomba
A propósito do artigo de VPV
O que Vasco Pulido Valente não diz neste seu artigo (errado, como diz Pedro Lains), é que o caso Crespo não existiria se este primeiro-ministro não se chamasse José Sócrates e não tivesse o cadastro que tem de pressões, condicionamentos e interferências directas na comunicação social, protegendo jornalistas que lhe são afectos e perseguindo os que lhe são incómodos. Ninguém se preocuparia com este assunto e ninguém se indignaria se não fosse esse pormenor de peso.
Como os factos de horror hoje divulgados pelo Sol (e ainda não desmentidos) comprovam cabalmente, as declarações de Sócrates a Nuno Santos, se foram de facto aquilo que escreveu Crespo (eu não sei e só Nuno Santos o pode confirmar), não são declarações meramente privadas, porque não são separáveis desta questão de óbvio interesse público que é a relação autoritária e patrulheira do governo com os media.
Um político tem certamente direito à privacidade da sua vida pessoal, familiar, íntima e por aí fora. Mas precisamente porque tem poder e pode usar esse poder para fins ilegítimos ou persecutórios, o escrutínio democrático a que um político está sujeito justifica uma relativa restrição da sua privacidade. O Henrique Raposo lembrou aqui muito bem o artigo de VPV sobre as figuras públicas, escrito em 1993. Aliás, eu não seria tão drástico e definitivo como VPV. Eu não me atreveria a dizer que os políticos não devem gozar de forma alguma da privacidade. Diria que quem exerce cargos públicos aceita ser escrutinado sobre tudo o que diga respeito ao modo como exerce as suas funções públicas (e o critério é este e só este). De qualquer maneira, estou quase totalmente de acordo com os argumentos que VPV indicou naquele seu texto dos anos 90 (excepto a ideia do "conhecer tudo sobre eles")
"Os políticos, porém, não devem gozar do privilégio de privacidade, sob forma alguma. Em primeiro lugar , não se limitam, como os jornalistas, a persuadir: coagem. Em segundo lugar, representam um eleitorado, a quem assiste a prerrogativa de conhecer tudo sobre eles. Em terceiro lugar, recebem poderes para servir o Estado e a sociedade e convém garantir que os não utilizam em seu benefício privado. E, em quarto lugar, os políticos estão especialmetne sujeitos a chantagem."
O problema de VPV, por muito que eu o admire, continua a ser o mesmo. Em 1993 estava num extremo. Em 2010 passou para o outro.
por
Pedro Lomba
Os factos
Estes falam em "higiene civilizacional" (suponho que para contrapor à grande higiene que vem relatada hoje pelo Sol). Pedro Marques Lopes, que ainda ontem jurava que não existia asfixia democrática nenhuma, pede-nos para recebermos de braços abertos o "mundo que aí vem" (este, como estamos a ver, é primoroso). O meu amigo Daniel Oliveira transforma os jornalistas no problema (como se tivessem sido os jornalistas a fazer as escutas no caso Face Oculta e como se as escutas em questão não tivessem sido validamente autorizadas por um juiz de instrução). Mas: e os factos, a substância, o escândalo e o enredo propriamente ditos? Não interessam para nada? Não aconteceram? Foi tudo uma invenção? Alguém irá falar do fundo do problema ou ficamos só pela secretaria e pela impunidade?
por
Pedro Lomba
Problemas
Existisse em Portugal uma direita digna desse nome e estaríamos a debater o défice, o endividamento público, o peso do Estado na economia e o papel dos privados no combate ao desemprego. Estaríamos a discutir o conselho do FMI para reduzirmos os salários dos nossos trabalhadores para aumentar a competitividade. Daniel Oliveira
Creio que o Daniel está enganado. Andamos mesmo a debater o défice, o endividamento, o peso do Estado na economia e o papel dos privados no combate ao desemprego. Mas também temos debatido o garrote anti-democrático em que este primeiro-ministro gosta de meter a imprensa e todos os seus opositores. Os problemas do país não passam só pelo défice que o governo escondeu antes das eleições. Passam também por aqui: a política de interferência sistemática deste primeiro-ministro nos meios de comunicação social. Não é aliás um tema diferente da sua interferência na economia. É o mesmo tema: sempre o peso do Estado. Na economia, nos media, na sociedade ou na Administração Pública. Se de facto Mário Crespo é tido por José Sócrates como um "problema a solucionar", não é só o défice que deveríamos estar a debater. É também isto.
por
Pedro Lomba
Subscrever:
Mensagens (Atom)




