Sobre os Abrantes e os Magalhães

Em relação ao que hoje é publicado no Correio da Manhã sobre parte da blogosfera socrática, o Daniel Oliveira coloca a questão nos exactos termos em que deve ser colocada: o relevo da história está na confirmação do recurso ao anonimato por pessoas ligadas ao governo, no Câmara Corporativa, para insultar e caluniar adversários em termos que os autores claramente não fariam assumindo a sua identidade real.
O resto do que consta da notícia do Correio da Manhã podia ter ficado na gaveta.

Uma descrição curiosa


Será que o João Marcelino acredita mesmo que pode escrever estas coisas sem que alguém repare ?

O problema não é a estupidez

A Ana Matos Pires diz que sobrestimo Sócrates ou passo um atestado de estupidez a uma "pipa de gente" quando afirmo que a Face Oculta levou muitas pessoas que não costumam dar para esse peditório a acreditar em teorias de conspiração.

E pergunto à Ana: a quem é que passei um atestado de estupidez ? Aos que continuam seguros de nada de grave ou sequer reprovável se ter passado sob a orientação (ou, no mínimo, com o conhecimento de Sócrates) ? Até se pode compreender a subsistência de algumas dúvidas sobre o sucedido; há passagens da história que talvez possam ser clarificadas. Mas é incompreensível a fé inabalável e sem hesitações na absoluta inocência do primeiro-ministro e na falsidade de todas as informações divulgadas.
Não sei o nome do problema, mas estupidez não será. Talvez seja fanatismo. Parece-me, no entanto, que se a motivação for aceitável não será racional e se for racional não será aceitável.

Repara que até já a Clara Ferreira Alves comprou a teoria da conspiração. Chegados a este ponto, está tudo dito.

Morte em Viena



Último movimento (allegro ma non troppo) da última sonata para piano de Schubert (D960), escrita no Outono de 1828, já muito perto da sua morte. Sete minutos e meio de indecisão entre notas sérias (dramáticas, por vezes) e passagens de um lirismo radical.

Depois da histeria, a demência

Aqui, na suruba socrática do costume.
Segundo o grupo coral Miguel Abrantes, este post do Eduardo terá sido censurado pelo Pedro...

Aterremos

O legado que José Sócrates deixa no país será obviamente terrível. Grande parte dos danos com que viveremos bastante tempo é fácil de prever. Mas já se sente outro efeito, talvez menos evidente, mas igualmente nefasto.
Ao deixar extremar tanto a luta, ao arrastar para o lamaçal político tantas instituições do Estado que deviam permanecer acima desse plano e ao resistir tão teimosamente à sua inevitável queda, o primeiro-ministro tem igualmente levado alguns dos seus opositores a perder o sentido das proporções.

A qualificação da propositura de uma providência cautelar como acto de censura é um disparate manifesto que só foi possível ver sustentado ontem e hoje por tantos neste clima de paranóia incandescente criado por José Sócrates.

Assim como o infeliz caso Mário Crespo (agora uma espécie de Leónidas) que em condições normais não teria o tratamento desproporcionado que teve. É claro que um primeiro-ministro num contexto semi-privado pode criticar um jornalista; é claro que quem sinta um seu direito potencialmente ofendido por uma publicação pode propor uma providência cautelar para impedir a respectiva divulgação; é claro que um governante pode criticar jornalistas em entrevistas ou discursos (talvez não seja politicamente hábil, mas isso são outras considerações); é claro, por fim, que um governante pode processar um jornalista que considere ter agido ilicitamente.

Mas também é claro que sabemos que este primeiro-ministro, tendo feito coisas que seriam relativamente indiferentes noutras circunstâncias, cometeu actos gravíssimos de controlo e manipulação da comunicação social. Este primeiro-ministro obrigou os habitualmente sensatos e cépticos a acreditar em teorias de conspiração.

Precisamos que estes últimos actos não fiquem em claro; precisamos que o bom-senso regresse para que os primeiros não sejam vistos como mais do que são. Precisamos, em suma, daquilo que mais nos tem faltado: normalidade.

A extensão do domínio da luta

O risco de transformar a luta política numa guerra sem quartel entre "nós" e os "outros" é o de perder-se o sentido dessa luta. Pior: não perdendo o sentido da luta, perder o controlo sobre a extensão do seu domínio.

Ontem, por exemplo, a propósito da providência cautelar contra o jornal Sol, foram feitas afirmações ignorantes e afirmações irresponsáveis. M. Moura Guedes - cujas palavras, dada a sua circunstância, têm um relativo interesse mediático - disse que a providência era a "oficialização da censura". O representante de um partido político considerou-a um "precedente preocupante". E um dirigente de uma associação de juizes, por seu lado, disse tratar-se de uma forma de pressão inaceitável.

Não nego que o cheiro a napalm logo pela manhã me agrade. No entanto, se a luta política é feita em nome de valores como a liberdade de expressão e a decência, este é um péssimo e perigoso caminho. Na relação entre direitos, eu diria que o de falar livremente pressupõe o de interpor providências cautelares, incluindo providências cautelares para impedir a publicação de notícias (só há liberdade com imputabilidade).

Por estes dias, importa não dispersar e manter cabeça fria. Evitar dar cobertura a dislates de personagens circunstanciais, mitigar os danos colaterais de certos voluntarismos, impedir a subversão da luta e a extensão do seu domínio. Para que tudo isto, no futuro, não nos rebente na cara.

Tentar distinguir

Cabeça fria, como tem pedido o Filipe. Não é fácil, mas tem de ser feito. Este primeiro-ministro perigoso, mais a sua camarilha mais próxima, em quem ninguém mais confia, são um capítulo que se está a fechar. Mas este governo tem muita gente competente e digna. Tem muita gente que conheço pessoalmente, nos ministérios, na Adminstração, pessoas de uma enorme qualidade. Foi um bom governo pelo menos durante os primeiros dois anos. Perdeu-se, sim, pelas razões conhecidas. O poder é dramático e, quando pensamos que podemos fazer tudo com ele, rebenta-nos fatalmente nas mãos. Não transformemos os dias de hoje numa caça às bruxas, não idolatremos os nossos (quem são os "nossos"?), não demonizemos os políticos ou os magistrados, nem endeusemos os jornalistas, que também escorregam muitas vezes. Nada de esticar a corda com um ambiente de "guerra civil" que torne o ar ainda mais irrespirável. Uma "providência cautelar" não é um acto de censura. As pressões, que fazem parte da relação conflitual que existe entre poderes, não atentam forçosamente contra a liberdade de imprensa. Magnanimidade, mesmo com quem nos tem ofendido. Não é tempo de confundir mas de tentar ver com clareza e distanciamento, para percebermos como é que podemos evitar muitos dos atropelos que têm ocorrido nestes tempos mais recentes. Tentar distinguir é um dever permanente.

(Este post responde também ao Eduardo, que só li agora, depois de o ter escrito, e de quem também sou leitor. Não, Eduardo, não existe nenhuma intolerância da minha parte. Nunca houve. Intransigência, sim, mas é outra coisa. E fecho este assunto).

Se eu fosse histérico, seria caso para dizer "j'accuse"

Já agora, uma vez que o tema é recorrentemente levantado nos blogues do "Eixo do Mal", aproveito para esclarecer algumas "falsidades" em que gente manifestamente "séria" tem sido pródiga. Pior: gente que se permite retirar conclusões de factos que não conhece, o que é sem dúvida original. Nunca abordei este problema em público, mas digo agora três coisas.

Escrevi vários artigos no diário económico atacando a "claustrofobia democrática" (podem ler, por exemplo, aquilo que escrevi, por exemplo, no próprio diário económico, antes das eleições, quando a Manuela Moura Guedes saiu da TVI). Comecei a escrever em 2008 no diário económico (a convite do anterior director, André Macedo), acumulando com um diário nacional (primeiro o diário de notícias, depois o i). Nunca avisei, nem precisava de avisar, nenhuma destas mudanças e posso dizer que até fui expressamente autorizado a fazer essa acumulação por um dos sub-directores do próprio diário económico. Ao contrário da informação que puseram a circular, não precisava de avisar o diário económico de que iria começar a escrever no Público, se isso nunca me foi exigido na anterior mudança do diário de notícias para o i, nem faria sentido que fosse exigido (a não ser talvez por cortesia) a um colunista meramente quinzenal que nunca contratou qualquer exclusividade. Aliás, se tivesse sido esse o motivo de terem "descontinuado" (no belo eufemismo da Fernanda Câncio) a minha coluna, o normal seria que me tivessem informado disso mesmo, que tivesse sido essa a explicação. Não o fizeram e nunca responderam ao meu email a pedir explicações.

Outro aspecto que aproveito para ressaltar é que me custa um bocado ter de lembrar a jornalistas alguns princípios básicos: a separação entre os grupos económicos e os órgãos de comunicação social e a autonomia dos seus colaboradores até vem na Constituição. Eu sei que esse princípio está a ser brutalmente desrespeitado por esse grande regime de liberdade que é o socratismo, mas não consigo ver como é que gente pretensamente de esquerda e que até trabalha na comunicação social, não lhe dá importância. Se me explicarem onde é que eu critiquei o diário económico, eu agradecia. Na verdade nunca critiquei nem o diário económico, nem nenhum dos seus directores ou jornalistas. Quanto à Ongoing, critiquei de facto no meu texto de 12 de Novembro no Público: parece que saíram umas notícias sobre escutas no início de Novembro, alguns dias antes de eu ter escrito o meu primeiro artigo, que começaram a tornar patente muita coisa. Aliás, com tudo aquilo que começamos a saber, acho que escrevi pouco.

Num daqueles gestos de portentosa honestidade a que nos tem habituado, creio que a Fernanda Câncio relaciona a minha saída com um post que escrevi aqui sobre a maravilhosa entrevista que o director do diário económico fez ao Figo no Verão do ano passado. Esse post não teve nada a ver como que se passou. Foi escrito posteriormente ao meu afastamento do diário económico, escrito no próprio dia em que o Correio da Manhã publicou uma notícia sobre a participação do Figo na pré-campanha eleitoral do PS. A relação entre uma coisa e outra é mais uma das falsidades que a Fernanda Câncio deu como certas. Cheguei a pensar na nossa troca de palavras numa caixa de comentários que o fez de boa-fé. Hoje, estou mais céptico.

Por razões óbvias, nunca me fiz de herói do que quer que seja. Nunca me perseguiram e nunca me condicionaram. Só não gostaram de uma coisa que escrevi e atiraram-me para rua. Precisamente por isso, quem sabia muito pouco sobre as circunstâncias em que a minha saída do diário económico se processou, mas ainda assim comentou o assunto com ligeireza, alimentando o que ouviram ou que lhe contaram, andou a pregar uma filha-da-putice e a propagar uma mentira. Deixo uma sugestão: não se abandalhem, nem abandalhem a inteligência dos outros. Até ao fim, mantenham a calma. A Fernanda Câncio está em denial. Vê o mundozinho dela em que podia e pôde fazer e desfazer personalidades pública a ruir, com estrondo e lodo. Arriscou a reputação na cobertura de um primeiro-ministro sinistro e desespera com a desonra e ostracismo que se aproxima. Infelizmente já ninguém a pode salvar.

Dúvida

Eu não conheço o Francisco Almeida Leite. Sei que é jornalista do DN e já li coisas dele e sobre ele.

Neste post relata parte do que viu ontem no lançamento da candidatura de Paulo Rangel e pergunto-me: estava lá na qualidade de apoiante de Rangel ou de jornalista do DN que acompanha a vida do PSD ?
Suponho que assistia na qualidade de jornalista. Não acredito na objectividade absoluta de nenhum ser humano e por isso não creio que seja exigível aos jornalistas. Mas também me parece óbvio que existem limites. Há um mínimo de distanciamento a assegurar e o apoio activo do jornalista que acompanha o PSD no DN a um dos candidatos em disputa ficaria claramente para além do aceitável.

Ou será que não ?

Coisas simples e trágicas

Andam muito nervosas a Fernanda e a Isabel. O toque de finados do regime que a têm dado cobertura já se está a ouvir e, naturalmente, o fanatismo e a falta de maneiras apertam. Falei da falta de "autonomia" da maioria dos membros do Jugular no sentido político porque é de política que estamos a falar, não das vossas vidas profissionais que em muitos casos nem sequer conheço. Falei de "autonomia" por razões óbvias: colaram-se tão excessiva e cegamente a este governo e aos seus métodos de grande "decência", ignoraram e continuaram factos escancarados, que, de facto, não vejo como é que agora podem recuar sem fazerem um enorme esforço de auto-crítica. Ficava-lhes bem, mas não o fazem. Autonomia, independência, é isto. Ou temos, ou não temos. A vossa reacção, sobretudo a da Fernanda, deixa-me completamente esclarecido. É uma reacção histérica semelhante à que teve Emídio Rangel ontem na RTP. Eu percebo: isto está tudo a cair, custa ver que andámos enganados e que, se calhar, até fomos enganados. Escusam é gritar agora tanto porque ninguém vos vai ouvir.

As nossas carreiras profissionais não são para aqui chamadas, nem eu alguma vez as invoquei. Fernanda, pergunta a uma jornalista qualquer do Sol, quando uma vez fizeram um perfil sobre ti, a opinião que lhes dei. Quando o PSD te atacou a propósito da RTP, intervim na tua defesa e fá-lo-ia hoje exactamente da mesma maneira. Em matéria de dignidade pessoal e profissional, ficamos conversados. Hoje já vi que desististe de argumentar e adoptaste um tom de insulto pessoal que é perfeitamente esclarecedor sobre a tua educação algo volátil. Como é óbvio, não tens rigorosamente nada para me ensinar em nenhum destes aspectos ou em quaisquer outros. E quanto ao teu aviso de que já não vais a tempo de rectificar a tua opinião sobre mim, se há opinião que deixei de respeitar já há algum tempo é a tua. Coisas simples, como eu dizia.

Ferreira Fernandes sobre Rangel

É certo que, ainda há três meses, ele disse que sendo eurodeputado acabaria o mandato e não se candidatava à liderança do PSD. Mas isso não interessa nada: o mundo está cheio de grandes políticos que roeram a corda. Aliás, os grandes foram- -no porque roeram a corda. Quem quiser bater em Rangel por causa dessa contradição mais do que perde tempo, revela impotência. Arrumado isto, Paulo Rangel, à luz de ontem, merece que lhe prestem atenção. Apresentou-se como "solitário", diz que não passou por encontros prévios nem almoços, daí tudo começar "aqui e agora", e falou para lá dos partidos, para os portugueses. Sublinhou o irresistível apelo nacional, como todos os homens providenciais (e os pretendidos a tal) nunca se esquecem de dizer. Se queria falar diferente, conseguiu-o - sobretudo nesse partido esgotado por clãs que é o PSD. Rangel soube, ainda, descobrir a palavra: ruptura. Se eu estivesse menos atento, ontem, teria contado as vezes que "ruptura" foi dita. Mas sei que foi dita as vezes para marcar. Dito isto, os prognósticos: ou ele consegue, ou não consegue. Se não consegue, é mais um. Se consegue: ou é, enfim, um bom, ou é um muito mau, muito. Esta última hipótese ponho-a exclusivamente por causa de ontem. Mas o quê, exactamente? Está escrito nesta pequena crónica.

Já se começa a notar


Crónicas de enjoo

Este artigo da dra. Constança Cunha e Sá, que tanto aplauso recebeu nos blogues do "Eixo do Mal", é completamente irrelevante para o que está em discussão. O caso Crespo, em que de resto também manifestei dúvidas pelo facto de o jornalista da SIC não ter sustentado bem a sua crónica, já faz parte da pré-História. Não é isso que está em cima da mesa. Com os indícios de que a TVI pode ter sido tomada de "assalto", Crespo não interessa para nada. Juridicamente, também é um artigo errado. Só mais faltava que o próprio ofendido não pudesse reagir em público, numa crónica, contra alguém que o ameaçou mesmo numa conversa particular. Não gosto de bufos, mas também não gosto de gente que não se sente. De qualquer maneira, como é fácil perceber, a separação entre aquilo que é público ou privado não depende necessariamente do local. Outra nota deste artigo refere os"Mários Crespos que por aí pululam" e o "ambiente de histeria". Claro que é só uma nota de estilo. A dra. Constança Cunha e Sá pertence a uma escola displicente da crónica portuguesa: o jornalismo que vive em permanente enjoo com o mundo. Neste texto, só tem razão no seguinte: este governo só não cai porque não há alternativa. É preciso por isso que o PSD se resolva.

Coisas simples

Que o Jugular não se junte à manifestação, eu compreendo. A maioria dos seus elementos não tem autonomia. Que os membros do Arrastão se deixem ir na cantiga, porque "não falamos todos da mesma liberdade", é mais estranho. Pois não: seguramente temos ideias diferentes sobre a liberdade e sobre as liberdades. Mas esta manifestação não é um concurso de liberdades. É um protesto por uma imprensa livre do controlo político e por um ambiente público respirável onde as nossas ideias se formem em liberdade; e é pelo esclarecimento das suspeitas que se avolumam sobre a actuação directa do primeiro-ministro em controlar a liberdade de informação.

Estes princípios não são de esquerda, nem de direita. São anteriores a tudo isso. Se vamos discutir o conceito de cada um sobre a liberdade de imprensa, nunca mais saímos daí e não se faz nada. Quem põe as convicções acima do tacticismo, tem de estar presente. Há uma esquerda radical que só se consegue juntar à direita nas causas que lidera (como aconteceu, por exemplo, no aborto). É preciso denunciar um primeiro-ministro que parece abusar sistematicamente do poder do Estado para uso próprio, no controlo de órgãos de informação privados. Tão simples quanto isso.