Estava lá mas escapou-me

Regressado de uma semana longe do país e com acesso muito rudimentar à internet, decidi comprar o Expresso. Lendo a crónica de Rui Ramos surpreendeu-me a referência: "um dos actuais concorrentes ao PSD sofreu uma revelação mística: só com o PS se podem fazer reformas".

A surpresa não foram as intenções "bloquistas" (de 'Bloco Central') de um dos candidatos a líder do PSD, porque nele em particular têm sido notórias, mas a sua declarada confissão em pleno período eleitoral interno. Achei que esse coelho só iria sair da cartola de... Coelho depois de estar bem instalado. Nunca acreditei que o pacto germano-soviético fosse confessado agora. Facto é que vi depois online o debate entre PPC e Rangel e lá estava a revelação.

"Paulo, eu estava lá", diz Passos, com o seu ar de galã de telenovela mexicana. E é verdade: estava. Está lá há 3 décadas, mas claramente tem percebido pouco. Escapou-lhe o papel que o PSD desempenhou sozinho em dois momentos históricos mesmo à frente do seu nariz de cera e pullover de gola em bico.

Não percebeu que, como muito bem diz Rui Ramos na mesma crónica: «O consenso que houver para aplicar um PEC não chegará para o resto, que hoje é tudo. Só uma maioria reformista poderá fazer reformas: haverá socialistas que, individualmente, poderão entrar nessa maioria; mas não o PS. Vai ser preciso ter pena de quem no PSD, querendo mudar, não perceber isso».

Não percebem nada de nada

Fazer do Óscar a Kathryn Bigelow um marco na luta feminista – como certa esquerda do tipo gaiola aberta anda a tentar fazer – é mais ou menos o mesmo que eu e as minhas barbas sairmos à rua a festejar uma vitória do velho Fidel.

Oscars

As minhas apostas para hoje. Ou melhor, uma vez que o jogo não é a dinheiro, os filmes do ano passado (ou que vi no ano passado) que gostaria que ganhassem em algumas categorias, sabendo que isso não irá acontecer, até porque alguns nem sequer foram nomeados:

BSO: Um Homem Singular/A Single Man
Fotografia: O Laço Branco/Das Weisse Band, Um Homem Singular/A Single Man
Argumento: Inglourious BasterdsO Laço Branco/Das Weisse Band, Estado de Guerra/Hurt Locker
Actor: Clint Estwood (Gran Torino), Joaquim Phoenix (Duplo Amor/Two Lovers), Colin Firth (Homem Singular/A Single Man)
Actor secundário: Christoph Waltz (Inglourious Basterds)
Realização: Kathryn Bigelow (Estado de Guerra/Hurt Locker), Tarantino
Filme: Estado de Guerra/Hurt Locker, Inglourious Basterds

Para lá do bom e do mau

Meu Amigo, 2001 está para o cinema como Parsifal está para a ópera: não se aprecia ou deixa de apreciar, impõe-se-nos de maneira absoluta, sem que fique nada de pé à sua volta. Pelo menos durante umas horas. E tu, que és Ricardo tal como Richard Wagner, certamente que o sabes.

A guerra é um lugar estranho














Duas cenas bastariam para fazer de The Hurt Locker um grande filme (o melhor, juntamente com In The Valley of Elah, sobre a guerra do Iraque): aquela em que Jeremy Renner, a personagem principal, caminha dentro de um enorme fato à prova de bomba acompanhado apenas pelo sopro tenso da sua respiração, e que remete, intencionalmente ou não, para 2001 e para a solidão do astronauta perante a infinitude do espaço (Jupiter and beyond the infinite); e uma outra em que três soldados americanos, após eliminarem os inimigos um a um durante uma emboscada no deserto, se mantêm estoicamente inertes ao longo de horas nas suas posições de defesa para assegurar que nenhuma nova surpresa aconteça.

O protocolo militar ensina que a prioridade quando se é apanhado numa emboscada é sobreviver ("live to fight another day"). Na generalidade dos casos, esse objectivo consegue-se abandonando de imediato a zona de fogo. Mas há situações em que, por tal ser de todo impossível, se torna necessário encontrar o lugar menos vulnerável dentro da zona fatal e, por maior que seja o desconforto, aí aguentar em vigília até que o tempo traga novas indicações. É aqui que reside o ponto forte de Hurt Locker: na eficácia com que faz passar certas ideias paradoxais associadas à guerra, como esta, de um lugar insuportavelmente desconfortável que é ao mesmo tempo o único lugar de resguardo possível.

[Spoiler]

No fim, Renner regressa a casa e apercebe-se que a única coisa que lhe interessa na vida, não é nem a segurança, nem a mulher, nem sequer ver o filho crescer, mas continuar a desarmantelar bombas na guerra. Na do Iraque ou em qualquer outra. E isso, contado como o filme conta, sem juízos de valor à mistura, tem uma grande pinta.

Um problema de formação: na JSD o inimigo é sempre interno

«A menos que tivesse participado no conluio para despachar Manuela Moura Guedes, é irrelevante a informação de que a dra. Ferreira Leite conheceu mais cedo ou mais tarde o negócio da PT/TVI, não é? Pedro Passos Coelho acha que não e surgiu logo a lamentar o papel (?) da senhora no processo. A menos que tivesse sido a principal responsável pela actual situação económica, é pertinente a comparação que a dra. Ferreira Leite fez entre Portugal e a Grécia, não é? Pedro Passos Coelho acha que não e surgiu logo a explicar que os países não são comparáveis.

Engraçado. O dr. Passos Coelho, que se diz do PSD e até concorre à respectiva presidência, é rápido como Usain Bolt a criticar a dra. Ferreira leite e omisso como um repolho a tecer qualquer reparo ao eng. Sócrates. Na cabeça da jovem esperança social-democrata, o grave não é o eng. Sócrates usar empresas públicas para manipular os media ou a inépcia própria para afundar a economia: gravíssimo é que a dra. Ferreira Leite o saiba ou diga.

Uma boutade célebre ensinava que os adversários se sentam nas bancadas dos restantes partidos e os inimigos na nossa. Temo que o dr. Passos Coelho tenha levado o ensinamento longe demais: para ele, os adversários e os inimigos estão todos na sua bancada. Ao PS, que por acaso é Governo, o dr. Passos Coelho apenas dedica simpatia. Não é à toa que, dos lados do PS, a simpatia é constantemente retribuída. Mas só à toa o PSD elegerá o simpático Pedro para líder: o Mudar do seu programático livrinho refere-se evidentemente à dra. Ferreira Leite e não ao eng. Sócrates, o qual, aliás, nem por uma vez é aí citado.

Depois de tentar controlar a informação, o que apesar de tudo causa algum alvoroço, o PS tenta subjugar a oposição, o que pelos vistos pode ser facílimo. A oposição, leia-se o PSD, o dirá.»

Alberto Gonçalves, no DN

and so the story goes

1914

Em mais um momento extraordinário de O Laço Branco, o barão, após uma discussão com a sua mulher em que esta lhe comunica que vai abandoná-lo para viver com outro em Itália, recebe a notícia de que o arquiduque Franz Ferdinand havia sido assassinado em Sarajevo. De repente, os acontecimentos paroquiais do filme ganham profundidade e contexto históricos. Numa fracção de segundo, emerge a grandeza histórica da Europa, também ela feita de histórias paroquiais, histórias de alcova, guerras familiares, crimes e escapadelas.

Educação sentimental

O último filme de Michel Haneke (O Laço Branco/Das weisse Band) passa-se numa remota aldeia do norte da Alemanha e conta a história de um grupo de crianças suspeitas (capazes?) de uma série de crimes e atrocidades. Porém, na sua cena mais cruel, o protagonista é outro: o médico que, no final de uma visista mal sucedida, se despede da sua amante dizendo-lhe o quanto ela o repugna e acusando-a, de caminho, de ser asquerosa, lassa, desmazelada e ter mau hálito. É Haneke a citar Bergman a citar Strindberg. Até que, a dada altura durante a conversa, quando questionado pela amante sobre as razões para continuar a procurar aquele ser tão desprezível que se ajoelha perante ele, o médico dá esta resposta brutal: "Quando estamos muito doentes tornamo-nos sentimentais". As crianças serão já um lobo do homem, mas há certos requintes que só chegam com a maturidade.

Extinção das Golden Shares e Regulação

O João Miranda (e o André Azevedo Alves, na sua senda) interpretou mal as palavras de Paulo Rangel sobre o papel que atribuiria à regulação para compensar a extinção das golden shares.O equívoco nasce claramente do ponto de partida do João Miranda, que assumiu (sem apoio literal) que Rangel vê as golden shares como um instrumento de bloquio da «entrada de estrangeiros (subvertendo o mercado), para promover negócios de Estado (Galp na Venezuela, no Brasil e em Angola) ou para promover investimento português no estrangeiro (participação na Vivo pela PT no Brasil e investimentos da EDP nos Estados Unidos)».
A verdade, porém, é que, ao contrário do que afirma João Miranda, Rangel não fez qualquer referência a esse tipo de actuação do Estado através das golden shares. Muito menos a aceitou. Não se percebe de onde retirou o João Miranda aquela ideia. O que é certo é que não se fundou em nenhuma declaração de Paulo Rangel. Até porque um regime regulatório que procurasse bloquear a entrada estrangeiros (da UE) seria incompatível com o direito comunitário.
Quando afirma (preliminarmente, relembro) que é desejável que a regulação cumpra a missão actualmente desempenhada pelas golden shares, Rangel pensa certamente nas funções «legítimas e lícitas» que lhes são correntemente atribuídas: (i) evitar rupturas de mercado em certos sectores estratégicos com um número de operadores limitado (fornecimento de energia eléctrica; aeroportos, gestão de linhas de caminho de ferro); (ii) assegurar a concorrência e (iii) a protecção dos consumidores ou, ainda, (iv) a manutenção de reservas estratégicas de certos bens (ex: combustíveis).

Boa parte destes objectivos são cumpridos pela tutela da concorrência nas suas diversas dimensões (que é uma actividade de regulação, note-se), contudo, não se esgotam aí as áreas em que o mercado exige correcção.
Recorde-se, aliás, que o argumento substantivo invocado pela República Portuguesa para sustentar a manutenção das golden shares na PT no seu contencioso com a UE é a salvaguarda para o Estado da «disponibilidade da rede de telecomunicações, que desempenha um papel essencial, designadamente, em situações de crise, de guerra ou de terrorismo».

O que Rangel parece propor é que o Estado extinga as golden shares e passe a assegurar parte das funções desempenhadas pelas mesmas através de entidades reguladoras, com clareza e transparência e evitando os desvios de poder que são uma prática recorrente e cada vez mais conhecida.

Um liberal puro talvez discorde de toda e qualquer fórmula de regulação, mesmo a que se reduza a evitar rupturas de mercado, a assegurar a concorrência e defesa dos consumidores. Um liberal puro pode achar que o livre funcionamento do mercado resolve todos estes problemas ou que nenhum destes aspectos merece preocupação e discordar de Rangel por não renunciar também a esse nível mínimo de intervenção. Mas essa discordância ideológica não legitima uma deturpação do que foi dito. João Miranda pode discordar, mas não pode adulterar as declarações de Paulo Rangel ao DN, imputando-lhe a intenção de se servir de autoridades reguladoras para subverter o mercado impedindo a entrada de empresas estrangeiras e impondo às empresas nacionais comportamentos no estrangeiro que favoreçam os "interesses nacionais".

Gostava, aliás, de saber como se faria isso de impor às empresas nacionais comportamentos no estrangeiro que favoreçam os "interesses nacionais" ?


Le monde soumet toute entreprise à une alternative; celle de la réussite ou de l'échec, de la victoire ou de la défaite. Je proteste d'une autre logique : je suis à la fois et contradictoirement heureux et malheureux.

[Roland Barthes, Fragmentos de Um Discurso Amoroso,1977 ]

A Polónia foi invadida, à tarde fui nadar

Diz o Sol desta semana que estive no lançamento do livro de Mário Crespo. Gostva de dizer que é falso, não fui a lançamento nenhum, não tinha provlema em ir ou não ir mas, na verdade, não fui.

Aproveito para botar a minha assinatura em baixo do post que o Duarte Lino escreveu aqui. Não tenho simpatia pela deriva socrática do João Galamba, não me parece meritório que tivesse feito um blog de apoio oficioso ao PS sem o assumir com clareza (nomeadamente, o facto de ter sido uma espécie de pivô da informação governamenral), deixando algumas pessoas que lá colaboraram com independência na obrigação de justificar que escreveram sem obedecer a agendas partidárias (no Pulo do Lobo, que coordenei, isso não aconteceu, nem eu deixaria que acontecesse). Dito isto, acho uma ignomínia a notícia do Correio da Manhã da semana passada sobre os ajustes directos. Não vejo ali qualquer interesse jornalístico . O governo contratou Galamba para trabalhar com motivo legítimo? Não vejo problema. E é deplorável a forma como foi redigida e apresentada, sem qualquer ângulo plausível que comprometesse o deputado. Pelo meio, ainda expuseram detalhes da vida privada de João Glaamba, com insinuações baratas e absurdas.

Defendo uma imprensa "robusta" no escrutínio da actividade política, em nome do interesse público e da formação da opinião pública. Mas no estado em que anda a política e a justiça, é bom que os jornais sejam escrupulosos e responsáveis no respeito pelo interesse público do seu direito a informar, se não quiserem ser atingidos pela mesma borrasca de desconfiança que mina os outros poderes.