Em 1895, às portas do tremendo século XX, Mahler apresenta a sua segunda sinfonia. Este primeiro andamento é talvez o último grande suspiro do romantismo. E um prólogo daquilo que a História haveria de trazer.
É um Eixo, de facto
Ouvi mais de uma vez Pedro Marques Lopes ser criticado por não assumir a sua militância na candidatura de Pedro Passos Coelho. Com toda a franqueza nunca me detive na crítica, porque assumi sempre que a premissa subjacente não podia ser verdadeira.
Sempre presumi que PML não fazia qualquer segredo do seu compromisso activo com PPC.
Mas ontem, para minha grande surpresa, ouvi PML renegar expressamente Passos no Eixo do Mal.
Não me surpreendeu o despudor de PML. Esse ângulo já ficou destapado inúmeras vezes na sua relação com José Sócrates e com o socratismo (o político e o mediático). Surpreendente foi PML estar convencido que engana alguém. O que impressiona é a ingenuidade e incapacidade de análise deste auto-proclamado analista.
O PML acha mesmo que consegue afirmar que não é “passista” (sic) numa mesa sem ninguém se rir ? Como é evidente, isso não aconteceu ontem.
Não está aqui em causa uma exigência de pluralismo. Seria absurdo pretender que nos inúmeros pequenos e grandes debates políticos que vão nascendo e morrendo em Portugal estivessem sempre representadas todas as tendências. PML não é jornalista. É um comentador e tem o direito de escolher lados. Tem o direito de comentar as acções de um candidato em cuja causa milita e de quem é conselheiro próximo. Mas tem a obrigação de assumir essa militância e de a revelar.
Não lhe é pedido muito, apenas o cumprimento da mais elementar das regras: transparência com o público. Até porque não mudaria nada. PML não passaria a ser visto como comentador de facção, porque esse rótulo já o acompanha.
Sempre presumi que PML não fazia qualquer segredo do seu compromisso activo com PPC.
Mas ontem, para minha grande surpresa, ouvi PML renegar expressamente Passos no Eixo do Mal.
Não me surpreendeu o despudor de PML. Esse ângulo já ficou destapado inúmeras vezes na sua relação com José Sócrates e com o socratismo (o político e o mediático). Surpreendente foi PML estar convencido que engana alguém. O que impressiona é a ingenuidade e incapacidade de análise deste auto-proclamado analista.
O PML acha mesmo que consegue afirmar que não é “passista” (sic) numa mesa sem ninguém se rir ? Como é evidente, isso não aconteceu ontem.
Não está aqui em causa uma exigência de pluralismo. Seria absurdo pretender que nos inúmeros pequenos e grandes debates políticos que vão nascendo e morrendo em Portugal estivessem sempre representadas todas as tendências. PML não é jornalista. É um comentador e tem o direito de escolher lados. Tem o direito de comentar as acções de um candidato em cuja causa milita e de quem é conselheiro próximo. Mas tem a obrigação de assumir essa militância e de a revelar.
Não lhe é pedido muito, apenas o cumprimento da mais elementar das regras: transparência com o público. Até porque não mudaria nada. PML não passaria a ser visto como comentador de facção, porque esse rótulo já o acompanha.
Este episódio só serviu para mostrar aos ainda distraídos que transparência e lisura não são consumo para esta personagem.
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Duarte Schmidt Lino
Currículos
Paulo Gorjão nem começa mal. Pode ser aborrecido e enganador discutir currículos. Conheço muito boa gente com grandes currículos profissionais e académicos que não dariam bons políticos, bons governantes ou bons primeiros-ministros. Nestas coisas prefiro ser negativo. Impressiona-me mais os sinais evidentes de falta de currículo do que os indícios de excelência.
Vejo no entanto que Gorjão, professor ao que sei de relações internacionais, está mal-informado sobre a carreira académica em direito. Se ele não se importar, alguns esclarecimentos. Primeiro: uma parte significativa dos académicos em direito nas universidades portuguesas conclui o doutoramento depois dos 35 anos. É uma tradição que está a mudar, que não existe lá fora, mas que ainda se mantém por cá. Aos 35 ou 36 anos, Paulo Rangel não tinha terminado o doutoramento tal como muitos outros da idade dele não o fizeram ou só o fizeram depois. E deixo outra informação: aos 35 ou 36 anos, Paulo Rangel já tinha escrito um livro importante (Repensar o poder judicial), além de vários estudos de direito constitucional de uma enorme qualidade, reconhecida aliás pelos seus pares.
Vejo no entanto que Gorjão, professor ao que sei de relações internacionais, está mal-informado sobre a carreira académica em direito. Se ele não se importar, alguns esclarecimentos. Primeiro: uma parte significativa dos académicos em direito nas universidades portuguesas conclui o doutoramento depois dos 35 anos. É uma tradição que está a mudar, que não existe lá fora, mas que ainda se mantém por cá. Aos 35 ou 36 anos, Paulo Rangel não tinha terminado o doutoramento tal como muitos outros da idade dele não o fizeram ou só o fizeram depois. E deixo outra informação: aos 35 ou 36 anos, Paulo Rangel já tinha escrito um livro importante (Repensar o poder judicial), além de vários estudos de direito constitucional de uma enorme qualidade, reconhecida aliás pelos seus pares.
Segundo: é provável que Rangel não tenha nenhum paper publicado em revistas internacionais com sistema de peer review. Mas se me derem 5 nomes de académicos portugueses em direito que publicaram em revistas internacionais com peer review, ficava agradecido. De facto: não temos muito essa tradição em Portugal.
A propósito de currículos, sugiro a leitura deste autor (via FNV): "Rangel é um jurista de primeira água, para mim o melhor da sua (minha) geração. Possui uma cultura vastíssima e é um orador nato. Não é por acaso, e muito menos por favor, que vai liderar a bancada do PSD no seu primeiro mandato como deputado. Quando os adeptos de Ferreira Leite falam em ‘credibilidade’, olho para os nomes que a acompanham e merecedor desse epíteto só vejo Rangel." Não consta que o currículo de qualidades jurídicas, culturais e coloquiais de Rangel tenha mudado. Mudaram algumas opiniões, é verdade. O Carlos Abreu Amorim, por exemplo, deu a volta ao sistema solar.
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Pedro Lomba
Estava lá mas escapou-me
Regressado de uma semana longe do país e com acesso muito rudimentar à internet, decidi comprar o Expresso. Lendo a crónica de Rui Ramos surpreendeu-me a referência: "um dos actuais concorrentes ao PSD sofreu uma revelação mística: só com o PS se podem fazer reformas".
A surpresa não foram as intenções "bloquistas" (de 'Bloco Central') de um dos candidatos a líder do PSD, porque nele em particular têm sido notórias, mas a sua declarada confissão em pleno período eleitoral interno. Achei que esse coelho só iria sair da cartola de... Coelho depois de estar bem instalado. Nunca acreditei que o pacto germano-soviético fosse confessado agora. Facto é que vi depois online o debate entre PPC e Rangel e lá estava a revelação.
"Paulo, eu estava lá", diz Passos, com o seu ar de galã de telenovela mexicana. E é verdade: estava. Está lá há 3 décadas, mas claramente tem percebido pouco. Escapou-lhe o papel que o PSD desempenhou sozinho em dois momentos históricos mesmo à frente do seu nariz de cera e pullover de gola em bico.
Não percebeu que, como muito bem diz Rui Ramos na mesma crónica: «O consenso que houver para aplicar um PEC não chegará para o resto, que hoje é tudo. Só uma maioria reformista poderá fazer reformas: haverá socialistas que, individualmente, poderão entrar nessa maioria; mas não o PS. Vai ser preciso ter pena de quem no PSD, querendo mudar, não perceber isso».
A surpresa não foram as intenções "bloquistas" (de 'Bloco Central') de um dos candidatos a líder do PSD, porque nele em particular têm sido notórias, mas a sua declarada confissão em pleno período eleitoral interno. Achei que esse coelho só iria sair da cartola de... Coelho depois de estar bem instalado. Nunca acreditei que o pacto germano-soviético fosse confessado agora. Facto é que vi depois online o debate entre PPC e Rangel e lá estava a revelação.
"Paulo, eu estava lá", diz Passos, com o seu ar de galã de telenovela mexicana. E é verdade: estava. Está lá há 3 décadas, mas claramente tem percebido pouco. Escapou-lhe o papel que o PSD desempenhou sozinho em dois momentos históricos mesmo à frente do seu nariz de cera e pullover de gola em bico.
Não percebeu que, como muito bem diz Rui Ramos na mesma crónica: «O consenso que houver para aplicar um PEC não chegará para o resto, que hoje é tudo. Só uma maioria reformista poderá fazer reformas: haverá socialistas que, individualmente, poderão entrar nessa maioria; mas não o PS. Vai ser preciso ter pena de quem no PSD, querendo mudar, não perceber isso».
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Duarte Schmidt Lino
Não percebem nada de nada
Fazer do Óscar a Kathryn Bigelow um marco na luta feminista – como certa esquerda do tipo gaiola aberta anda a tentar fazer – é mais ou menos o mesmo que eu e as minhas barbas sairmos à rua a festejar uma vitória do velho Fidel.
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Eduardo
Oscars
As minhas apostas para hoje. Ou melhor, uma vez que o jogo não é a dinheiro, os filmes do ano passado (ou que vi no ano passado) que gostaria que ganhassem em algumas categorias, sabendo que isso não irá acontecer, até porque alguns nem sequer foram nomeados:
BSO: Um Homem Singular/A Single Man
Fotografia: O Laço Branco/Das Weisse Band, Um Homem Singular/A Single Man
Argumento: Inglourious Basterds, O Laço Branco/Das Weisse Band, Estado de Guerra/Hurt Locker
Actor: Clint Estwood (Gran Torino), Joaquim Phoenix (Duplo Amor/Two Lovers), Colin Firth (Homem Singular/A Single Man)
Actor secundário: Christoph Waltz (Inglourious Basterds)
Realização: Kathryn Bigelow (Estado de Guerra/Hurt Locker), Tarantino
Filme: Estado de Guerra/Hurt Locker, Inglourious Basterds
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Eduardo
Para lá do bom e do mau
Meu Amigo, 2001 está para o cinema como Parsifal está para a ópera: não se aprecia ou deixa de apreciar, impõe-se-nos de maneira absoluta, sem que fique nada de pé à sua volta. Pelo menos durante umas horas. E tu, que és Ricardo tal como Richard Wagner, certamente que o sabes.
por
Eduardo
A guerra é um lugar estranho
Duas cenas bastariam para fazer de The Hurt Locker um grande filme (o melhor, juntamente com In The Valley of Elah, sobre a guerra do Iraque): aquela em que Jeremy Renner, a personagem principal, caminha dentro de um enorme fato à prova de bomba acompanhado apenas pelo sopro tenso da sua respiração, e que remete, intencionalmente ou não, para 2001 e para a solidão do astronauta perante a infinitude do espaço (Jupiter and beyond the infinite); e uma outra em que três soldados americanos, após eliminarem os inimigos um a um durante uma emboscada no deserto, se mantêm estoicamente inertes ao longo de horas nas suas posições de defesa para assegurar que nenhuma nova surpresa aconteça.
O protocolo militar ensina que a prioridade quando se é apanhado numa emboscada é sobreviver ("live to fight another day"). Na generalidade dos casos, esse objectivo consegue-se abandonando de imediato a zona de fogo. Mas há situações em que, por tal ser de todo impossível, se torna necessário encontrar o lugar menos vulnerável dentro da zona fatal e, por maior que seja o desconforto, aí aguentar em vigília até que o tempo traga novas indicações. É aqui que reside o ponto forte de Hurt Locker: na eficácia com que faz passar certas ideias paradoxais associadas à guerra, como esta, de um lugar insuportavelmente desconfortável que é ao mesmo tempo o único lugar de resguardo possível.
[Spoiler]
No fim, Renner regressa a casa e apercebe-se que a única coisa que lhe interessa na vida, não é nem a segurança, nem a mulher, nem sequer ver o filho crescer, mas continuar a desarmantelar bombas na guerra. Na do Iraque ou em qualquer outra. E isso, contado como o filme conta, sem juízos de valor à mistura, tem uma grande pinta.
O protocolo militar ensina que a prioridade quando se é apanhado numa emboscada é sobreviver ("live to fight another day"). Na generalidade dos casos, esse objectivo consegue-se abandonando de imediato a zona de fogo. Mas há situações em que, por tal ser de todo impossível, se torna necessário encontrar o lugar menos vulnerável dentro da zona fatal e, por maior que seja o desconforto, aí aguentar em vigília até que o tempo traga novas indicações. É aqui que reside o ponto forte de Hurt Locker: na eficácia com que faz passar certas ideias paradoxais associadas à guerra, como esta, de um lugar insuportavelmente desconfortável que é ao mesmo tempo o único lugar de resguardo possível.
[Spoiler]
No fim, Renner regressa a casa e apercebe-se que a única coisa que lhe interessa na vida, não é nem a segurança, nem a mulher, nem sequer ver o filho crescer, mas continuar a desarmantelar bombas na guerra. Na do Iraque ou em qualquer outra. E isso, contado como o filme conta, sem juízos de valor à mistura, tem uma grande pinta.
por
Eduardo
1914
Em mais um momento extraordinário de O Laço Branco, o barão, após uma discussão com a sua mulher em que esta lhe comunica que vai abandoná-lo para viver com outro em Itália, recebe a notícia de que o arquiduque Franz Ferdinand havia sido assassinado em Sarajevo. De repente, os acontecimentos paroquiais do filme ganham profundidade e contexto históricos. Numa fracção de segundo, emerge a grandeza histórica da Europa, também ela feita de histórias paroquiais, histórias de alcova, guerras familiares, crimes e escapadelas.
por
Eduardo
Educação sentimental
O último filme de Michel Haneke (O Laço Branco/Das weisse Band) passa-se numa remota aldeia do norte da Alemanha e conta a história de um grupo de crianças suspeitas (capazes?) de uma série de crimes e atrocidades. Porém, na sua cena mais cruel, o protagonista é outro: o médico que, no final de uma visista mal sucedida, se despede da sua amante dizendo-lhe o quanto ela o repugna e acusando-a, de caminho, de ser asquerosa, lassa, desmazelada e ter mau hálito. É Haneke a citar Bergman a citar Strindberg. Até que, a dada altura durante a conversa, quando questionado pela amante sobre as razões para continuar a procurar aquele ser tão desprezível que se ajoelha perante ele, o médico dá esta resposta brutal: "Quando estamos muito doentes tornamo-nos sentimentais". As crianças serão já um lobo do homem, mas há certos requintes que só chegam com a maturidade.
por
Eduardo
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