Better to be king for a night than a schmuck for a lifetime



O que fascina em Rupert Pupkin é a capacidade de estimular em simultâneo sentimentos (aparentemente) contraditórios como o desdém e a caridade.

"já estou cansada deste genero de blogar" II

Quem estiver cansado “deste género de blogar” pode sempre, mantendo-se no mesmo blog (que magnifica colecção), mudar a agulha para um outro “género de blogar” deveras curioso: o post aos berros. A Mónica Andrezo Pinheiro consegue o feito de, num singelo post, recriar o ambiente da lota de Matosinhos em dia de arruada de Narciso Miranda. Com tanta exclamação e indignação, tanto bold e caixa alta, ler blogs está tornar-se num exercício de risco.

"já estou cansada deste género de blogar"

Esta sequência de umdois, três, quatro textos - pela absoluta aleatoriedade da pontuação, pelo humor involuntariamente dadaísta, enfim, pela biqueirada gramatical nos rins do leitor - leva-me a pensar se o Azevedo Afonso Neves não será um ghost writer da Marta Rebelo. Ou talvez vice-versa.

Um eu apto para ser amado














Qualquer um de nós, suponho, afirmaria que o amor-próprio é a primeira condição da sobrevivência. E como a sobrevivência é o mais conservador dos deveres que temos no mundo, está então encontrada a primeira obrigação que também temos para connosco: o amor-próprio. O amor-próprio e a sobrevivência andam na mesma estrada.

Agora sentem-se e leiam isto:

"Survival (the animal, the physical, bodily survival) can do without self-love. As a matter of fact, it may do better wihout it than with it. The survival instinct and self-love may be parallel roads, but they may also run in opposite directions. Self-love may rebel against the continuation of life if we find that life hateful rather than lovable. Self-love can prod us to reject survival if our life is not up to love's standards and therefore not worth living.
What we love when we "love ourselves" is a self fit to be loved. What we love is the state, or the hope, of being loved - of being an object worthy of love, being recognized as such, and being given proof of that recognition.
In short: in order to have self-love, we need to be loved or to have hope of being loved. Refusal of love - a snub, a rejection, denial of status of a love-worthy object - breeds self-hatred. Self-love is built of the love offered to us by others. Others must love us first, so that we can begin to love ourselves."

Grande cabeça tem este Baumann. O que é fascinante aqui não é apenas essa separação radical entre o amor-próprio e a sobrevivência. O amor-próprio que me tenho pode implicar um eu que tragicamente não consigo alcançar, pelo que ficarei dispensado de querer sobreviver. A outra ideia é que eu devo tentar ser, ao longo da vida, um objecto digno de ser amado - an object worthy of love - a fim de manter sempre viva a esperança de ser amado, isto é, de ser reconhecido como amável e de ser amado por esse reconhecimento. Por outras palavras, podemos dizer que o amor-próprio não pressupõe tanto uma ética de sobrevivência como uma ética de aperfeiçoamento. Serei tanto ou mais amado, na medida em que seja digno de ser amado. Se eu desistir daquilo que pode fazer de mim um ser amável, susceptível de ser amado, perderei a esperança de que os outros me amem e, consequentemente, perderei também qualquer possibilidade de amor-próprio.

Teoria da imparcialidade

Este post é para mim uma novidade. Um comentador decide declarar os seus interesses depois e só depois de ter atingido aquilo que queria: a vitória do seu candidato (Pedro Passos Coelho). Há dois anos que o comentador anda metido em tudo o que é cenáculo na defesa de Passos Coelho e na crítica aos membros da antiga direcção de Ferreira Leite. Mas não se fica por aqui. Agora que os seus interesses estão na liderança, o autor informa-nos grotescamente que deixou de ter interesses, dando por “terminado" o seu apoio a Passos Coelho. Enganou-nos uma vez e ainda nos quer enganar uma segunda.

Razão tem José Barros na caixa de comentários do mesmo post. Por falar nisso, não há nenhum blog que ponha o José Barros a escrever com regularidade, agora o que o desabrantizante terminou.

José Barros disse

Fazia sentido escrever este post quando se iniciou, há cerca de um ano, uma campanha anti-Ferreira Leite em benefício do, na altura, pretendente ao trono. Aí sim, ficava bem que se dissesse que se estava em campanha para a eleição de Passos Coelho, nessa medida fazendo operar uma declaração de interesses que informaria os leitores dos objectivos do comentário político produzido pelo autor do post. Por outras palavras, os interesses declaram-se à partida, não à chegada a um objectivo político. Nessa medida, este post não passa de uma tentativa frustrada de passar um atestado de estupidez aos leitores. Resta que estes, como se vê pela caixa de comentários do Blasfémias, já há muito passaram a certidão de óbito ao autor do post enquanto analista político. O CAA poderá ser muitas coisas, analista político é que não é.

As eleições do PSD interessam ao CDS?

No essencial, há duas formas possíveis de o CDS olhar para o PSD: como o concorrente directo cujo eleitorado interessa ir conquistando ou como uma condição natural e (para já) necessária para chegar ao poder.

Nenhuma destas abordagens é absolutamente certa ou errada; e quem já tenha defendido a primeira não está de modo algum impedido de, em diferente contexto, defender a segunda. A bondade de cada uma depende sempre de uma análise caso a caso, que tenha em atenção as circunstâncias políticas do país, o objectivo imediato do partido na altura em que se propõe pô-la em prática e, claro, a existência ou não de um mínimo denominador comum com o PSD.

Como não pode deixar de ser, a forma de o CDS olhar para estas eleições do PSD depende muito de qual destas duas abordagens interessa seguir no futuro próximo: continuar a crescer à custa do PSD ou criar condições para uma aliança entre os dois partidos.

Porque na política privilegio a ideia de combate, inclino-me, naturalmente, para a primeira opção. Já tive oportunidade de dizer no CDS que o partido deve ir fazendo o seu caminho sozinho, pois apenas sozinho terá as condições ideais para propor aos eleitores um caminho diferente do que tem vindo a ser seguido nos últimos anos. 

Mas nem todos os tempos são tempos de falcão. Há alturas em que a luta política – que é sempre uma luta pelo poder, mesmo quando a estratégia usada põe de lado o acesso imediato aos centros a partir de onde este é exercido – tem que passar pelo compromisso. E esta, a meu ver, é uma delas.

Depois do resultado alcançado nas legislativas passadas, o CDS tornou-se incontornável para qualquer solução de governo alternativa ao PS e à esquerda. Nessa medida, quando chegar o momento de substituir o PS, o eleitorado dificilmente compreenderá que o CDS não faça o que estiver ao seu alcance para viabilizar tal alternativa. Goste-se ou não, os tempos vão obrigar a compromissos.

À luz desta grelha, Paulo Rangel é o melhor candidato. É o político com melhores condições para um entendimento pré ou pós eleitoral à direita. Tem categoria intelectual bastante para não sair diminuído ao lado de Paulo Portas e mais sólidos pontos de contacto ideológico e programático com o eleitor não socialista do que Pedro Passos Coelho. Até porque o pensamento de Passos Coelho é demasiado volátil, não se percebendo se assenta numa ideia de fundo para o país ou em emergências tácticas de ocasião. Para já não falar do facto de por entre os seus "ideólogos" estarem diversas figuras hostis a muito do eleitorado que vai ser necessário captar para voltar a ganhar eleições.

Mas Rangel traz também a promessa de ruptura. Uma ruptura que, para lá do carácter meramente retórico da expressão, se dirige a uma certa cultura política saída do 25 de Abril: dos infindáveis direitos adquiridos, tantos deles prejudiciais entre si; do Estado providencial, que, por a tudo e a todos querer acudir, acabará por deixar cair os mais fracos; da luta de classes e de culturas aplicada ao mais ínfimo aspecto da vida e do quotidiano; da Administração como prémio ou degrau de carreiras partidárias em vez de ofício para servir o país. Uma ruptura com uma mentalidade política que terá feito sentido no Portugal dos anos 80 mas que hoje, por ser obsoleta, é uma causa de estagnação. Uma ruptura com um modo de fazer política que continua presente em muitas das estruturas orgânicas do PSD (e do CDS), e que por isso é também uma ruptura interior.

Não espero revoluções e cada vez sou mais céptico quanto à capacidade de os governos de pequenos países, como Portugal, mudarem o que quer que seja. Mas acredito que, com pequenos passos, é possível, quanto mais não seja, melhorar o ambiente político. As pessoas, depois, encarregar-se-ão ou não do resto. A eleição de Paulo Rangel - a acontecer - será mais um passo neste caminho.

A corte


Alguém acaba de assumir novo cargo, é uma inundação de louvores em seu favor que sobe dos paços e capelas, ganha a escadaria, as salas, a galeria, todo o prédio: têm-se os ouvidos cheios; não se agüenta mais. Não há duas vozes diferentes sobre essa personagem; a inveja, a rivalidade, falam como a adulação: todos se deixam levar pela torrente que arrasta, que os força a dizer de um homem o que eles pensam ou o que não pensam, como louvar muitas vezes um sujeito que nem conhecem. O homem de inteligência, de mérito, ou de valor, se torna, num instante, um gênio de primeira ordem, um herói, um semideus. É tão prodigiosamente favorecido, em todas as pinturas que fazem dele, que parece disforme perto de seus retratos: é impossível para ele chegar jamais até onde a baixeza e a lisonja acabam de levá-lo; ele se envergonha da própria reputação. Mal começa a vacilar no cargo em que o tinham posto, todo mundo muda facilmente de opinião: se é completamente destituído, as geringonças que o tinham guindado tão alto, pelo aplauso e os elogios, ainda estão armadas para fazê-lo cair no último desprezo; quero dizer que não há quem o desdenhe mais, quem o censure mais amargamente, e quem diga mais mal dele, do que aqueles que estavam como que tomados pelo furor de dizer bem dele.

Governo Sombra de PPC


Primeiro-Ministro Sombra do governo sombra.

Governo Sombra de Passos Coelho


Ministro de Estado e da Administração Interna

O rei da comédia

Se o mundo fosse um lugar justo e o homem um bom selvagem, alguém já teria tido o cuidado de alertar este jovem para a trágica figura que anda a fazer. Mas este é um mundo cruel, em que até os mais chegados são incapazes de resistir ao perverso prazer de observar passivamente um dos seus a fazer chichi pelas pernas abaixo. À indigência sintáctica e gramatical da criatura, junta-se agora a tentativa de ter graça. Porém, mais do que falhado, o ensaio mete dó. Provoca aquele remoinho na barriga de vergonha do alheio, um alheio que sendo no fundo bem-intencionado (tragédia) acaba vítima da sua aterradora inabilidade (comédia). O Afonso Azevedo Neves faz lembrar o Rupert Pupkin (para os esquecidos: King of Comedy, Martin Scorsese, 1982). O mesmo excesso de voluntarismo, a mesma falta de jeito, provavelmente, o mesmo final feliz. Temo que, tal como no filme, nós é que sejamos os loucos.




Em 1895, às portas do tremendo século XX, Mahler apresenta a sua segunda sinfonia. Este primeiro andamento é talvez o último grande suspiro do romantismo. E um prólogo daquilo que a História haveria de trazer.

É um Eixo, de facto

Ouvi mais de uma vez Pedro Marques Lopes ser criticado por não assumir a sua militância na candidatura de Pedro Passos Coelho. Com toda a franqueza nunca me detive na crítica, porque assumi sempre que a premissa subjacente não podia ser verdadeira.
Sempre presumi que PML não fazia qualquer segredo do seu compromisso activo com PPC.
Mas ontem, para minha grande surpresa, ouvi PML renegar expressamente Passos no Eixo do Mal.
Não me surpreendeu o despudor de PML. Esse ângulo já ficou destapado inúmeras vezes na sua relação com José Sócrates e com o socratismo (o político e o mediático). Surpreendente foi PML estar convencido que engana alguém. O que impressiona é a ingenuidade e incapacidade de análise deste auto-proclamado analista.

O PML acha mesmo que consegue afirmar que não é “passista” (sic) numa mesa sem ninguém se rir ? Como é evidente, isso não aconteceu ontem.

Não está aqui em causa uma exigência de pluralismo. Seria absurdo pretender que nos inúmeros pequenos e grandes debates políticos que vão nascendo e morrendo em Portugal estivessem sempre representadas todas as tendências. PML não é jornalista. É um comentador e tem o direito de escolher lados. Tem o direito de comentar as acções de um candidato em cuja causa milita e de quem é conselheiro próximo. Mas tem a obrigação de assumir essa militância e de a revelar.
Não lhe é pedido muito, apenas o cumprimento da mais elementar das regras: transparência com o público. Até porque não mudaria nada. PML não passaria a ser visto como comentador de facção, porque esse rótulo já o acompanha.

Este episódio só serviu para mostrar aos ainda distraídos que transparência e lisura não são consumo para esta personagem.