MAD

A doutrina MAD (mutual assured destruction) assentava na ideia do equilíbrio do terror. Cada uma das partes confiava que a outra se absteria de lançar um ataque nuclear por saber que a retaliação do atacado aniquilaria também o atacante. A segurança dos dois blocos dependia da mútua consciência da letalidade do second strike do inimigo. Os dois contenders viviam num estado de respeitosa vigilância recíproca. Uma cena de duelo sem desfecho, tensão perpétua sem disparos.
O sistema partidário português, com variações de grau dependendo dos líderes do momento, vive num nefasto equilíbrio muito análogo ao MAD quando o tema é corrupção. Mais precisamente, quando em cima da mesa estão as implicações políticas de um caso concreto de corrupção, com nomes conhecidos.
A multidão de cadáveres (em variados estados de decomposição) que todos guardam nas arcas, e que todos sabem que os outros guardam nas arcas, são o dissuasor de qualquer ataque. Todos sabem que quem iniciar um ataque nesse terreno pode não sobreviver ao second strike do adversário. É o equilíbrio da podridão.
Ontem o debate sobre os arrabaldes do processo Face Oculta aqueceu no parlamento. Na síntese da SICN, a jornalista dizia que “o CDS, mais uma vez, ficou à margem”.
E é mesmo assim. Sempre que o tema na ordem do dia envolve justiça — por mais politicamente relevante que possa ser — a bancada do CDS escorrega devagarinho cadeira abaixo até à invisibilidade e finge-se morta. O PSD neste momento conserva alguma liberdade de movimentos e isso nota-se. Mas tudo pode mudar em Maio: atenção aos sinais.
Beware the ides of May.